Otimismo num cenário incerto

Alguns indicadores alimentam a sensação de que os problemas passaram, mas muitos continuam ameaçadores

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2022 | 03h00

A alta das vendas do varejo em março foi o terceiro resultado mensal positivo consecutivo, e levou o volume vendido a ficar 2,6% acima do nível de fevereiro de 2020. Também o setor de serviços já opera em ritmo bem superior ao observado antes da pandemia. A taxa de desocupação se estabilizou num nível inferior ao observado até meados do ano passado. Dados como esses, aferidos mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram um cenário melhor do que se podia esperar no início do ano.

Nesse quadro menos sombrio, a pandemia parece ter desaparecido do horizonte de boa parte dos analistas. Assim, projeções para o desempenho da economia vão subindo, como mostram as pesquisas semanais do Banco Central com a média das avaliações das instituições financeiras. Não faz muito tempo, não eram raras as projeções de queda do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022. A média das projeções vem subindo e, depois de ficar abaixo de 0,5% em boa parte do ano, agora se aproxima de 1%.

Seria bom se esse cenário se consolidasse e, nos próximos meses, fosse adornado por mais indicadores positivos que apontassem para uma recuperação mais rápida e sustentada da atividade econômica.

Além dos dados animadores, porém, há outros que recomendam precaução nas projeções. O primeiro deles é a inflação, que na prévia para abril alcançou 1,73%, com o que o resultado acumulado de 12 meses chegou a 12,03%. É para conter esse vigor inflacionário que o Comitê de Política Monetária (Copom) vem elevando a taxa Selic, o juro básico da economia. Em sua mais recente reunião a aumentou de 11,75% para 12,75%. No início do ano passado, a Selic estava em 2%.

O endurecimento da política monetária afetará o desempenho da economia nos próximos meses. Consumidores serão em alguma medida desestimulados a tomar empréstimos para fazer compras de bens de maior valor, empresas igualmente tenderão a recorrer menos a financiamentos bancários. A inadimplência já está alta e poderá aumentar. O desempenho da economia, assim, poderá não ser tão animador como hoje se projeta.

A taxa de desocupação, embora tenha caído do pico de 14,9%, observado no início do ano passado, para 11,1% nas pesquisas mais recentes divulgadas pelo IBGE, continua alta. E a renda real média do trabalho é 8,6% menor do que a de um ano antes.

A política fiscal, marcada por ardilosas manobras orçamentárias do Executivo e estimuladas pelo Congresso, gera dúvidas que o clima eleitoral tenderá a acentuar. Não há sinais de que, por esse lado, possa haver melhora neste ano.

No plano internacional, de onde provêm pressões inflacionárias, também não há razões para esperar mudanças positivas. A guerra na Ucrânia continua a impulsionar preços de importantes itens do comércio mundial e que afetam o Brasil, como petróleo, trigo, milho e fertilizantes. E a atividade econômica mundial está em desaceleração.

Não sem razão, “incerteza” é uma palavra repetida várias vezes na ata da última reunião do Copom. Ser otimista diante de tantas incertezas requer alguma dose de prudência.

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