Outra década perdida

Estagnação do País prejudicou gerações. Hoje os filhos têm dificuldades para manter o status dos pais

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2020 | 03h00

O decênio terminado no ano passado foi o pior para a economia brasileira desde o início do século passado. No período iniciado em 2010 e terminado em 2019, o crescimento anual médio do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro foi de apenas 1,39%. É significativamente menor do que a média anual de 1,75% do decênio iniciado em 1990.

“A década (sic) de 2010 foi a pior para o crescimento do PIB entre as 12 analisadas”, observa o autor do estudo, o economista Roberto Macedo, da Universidade de São Paulo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda no governo Fernando Henrique Cardoso. Macedo considera década o período iniciado com ano terminado em zero e encerrado com ano terminado em nove.

Quando colocadas num gráfico, como na reportagem publicada pelo Estado, as médias decenais de crescimento anual do PIB deixam nítido o péssimo desempenho da economia brasileira no período 2010-19. Em 10 dos 12 decênios avaliados no estudo de Macedo o crescimento médio anual foi igual ou superior a 3%. Em quatro (os iniciados em 1920, 1950, 1960 e 1970) o crescimento foi igual ou superior a 6% ao ano. Nesse longo período de 120 anos, o Brasil conseguiu superar as principais barreiras do subdesenvolvimento, chegou a impressionar o restante do mundo com a rapidez de expansão de sua economia, viu a renda per capita crescer celeremente, com a consequente redução dos índices de pobreza e de deficiência de alimentação. Decerto problemas sociais e econômicos, alguns agudos, persistem e continuam a desafiar o poder público e a exigir providências eficazes e responsáveis das autoridades.

A interrupção do ritmo expressivo de crescimento no último decênio resultou na piora de alguns importantes indicadores sociais, como nível de emprego e renda, no desânimo do setor produtivo, na retração dos investimentos e no aumento da desesperança de muitas famílias.

Há um ônus social que levará tempo para ser resgatado. “Essa estagnação prejudicou muito as gerações recentes”, observou o economista Roberto Macedo. “Percebi que nas gerações passadas havia muita ascensão social, isto é, o status social dos filhos superava o dos pais. Hoje, isso se inverteu, com os filhos tendo dificuldade de até mesmo manter o status social dos pais.”

O fracasso dos planos de estabilização insistentemente tentados pelo governo José Sarney na segunda metade dos anos 1980 não foi suficiente para demover o governo do presidente Fernando Collor, eleito em 1989 e empossado em março de 1990, de tentar um novo grande lance contra a inflação descontrolada. O malogro também do plano de Collor fez o PIB encolher 4,3% em 1990, o que puxou a média da década 1981-1990 para 1,31%. Por isso esse período é conhecido como a década perdida. O resultado médio dessa década é muito próximo do apurado para o decênio 2010-2019.

Os problemas dos últimos dez anos são a herança maldita deixada pelo governo da presidente Dilma Rousseff. Eleita em 2010 e reeleita em 2014, Dilma ficou na Presidência durante pouco mais de cinco anos. Tantos foram seus erros políticos e desmandos administrativo-financeiros que teve seu mandato cassado no dia 31 de agosto de 2016. O mandato foi concluído pelo vice-presidente eleito em sua chapa, Michel Temer.

Já se passaram mais de três anos desde o afastamento de Dilma, mas o Brasil ainda não se recuperou do desastre causado por sua política econômica, e que teve como pior momento a recessão que se iniciou no fim de 2014 e se estendeu até o início de 2017.

O pífio crescimento do PIB de 1,1% em 2017 e em 2018, e que deve ter se repetido em 2019 – e contribuiu de maneira decisiva para o mau desempenho entre 2010 e 2019 –, mostra como é difícil para o País superar as consequências da aventura lulopetista.

Há sinais animadores no horizonte, mas ainda há muito a consertar para estabelecer as bases para o crescimento mais rápido e consistente.

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