País conectado

A expansão acelerada do uso da internet no Brasil tem óbvias implicações econômicas, sociais e políticas. Mas ainda há um contingente significativo de brasileiros excluídos da rede

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2018 | 03h00

Quase 75% dos domicílios brasileiros utilizavam a internet em 2017, ante 69,3% em 2016, mostra a pesquisa Tecnologia da Informação e Comunicação, feita pelo IBGE com base em dados da Pnad Contínua. Na área urbana, esse porcentual subiu de 75% para 80,1%, enquanto na área rural passou de 33,6% para 41%. Em número absoluto de usuários de internet com mais de 10 anos de idade, o total passou de 116,1 milhões para 126,3 milhões no período, um expressivo aumento de 10 milhões em apenas um ano.

A expansão acelerada do uso da internet no Brasil tem óbvias implicações econômicas, sociais e políticas. Em um país conectado, os cidadãos tendem a mudar seus hábitos de consumo, a ampliar consideravelmente sua rede de relacionamentos pessoais e profissionais e a trocar informações de maneira muito mais rápida, o que certamente tem peso na tomada de decisões - seja para gastar dinheiro, seja para escolher em quem votar.

Um dos aspectos mais interessantes da pesquisa é justamente a informação segundo a qual 95,5% dos usuários de internet entraram na rede para “enviar ou receber mensagens de texto, voz ou imagens por aplicativos diferentes de e-mail”. Não por acaso, esses aplicativos, notadamente o WhatsApp, estiveram no centro das atenções durante as eleições deste ano. Muitos consideram que o sucesso eleitoral hoje depende em larga medida não mais exclusivamente de polpudos recursos financeiros ou de acesso aos tradicionais veículos de mídia de massa, mas sim, antes de mais nada, de uma boa rede de comunicação por meio desses aplicativos.

O poder dessa forma de comunicação fica ainda mais claro quando se observa, segundo a pesquisa do IBGE, que o número de usuários de internet que acessam a rede por meio de celular subiu de 94,6% em 2016 para 97% em 2017. Já o número de usuários que acessam a rede por meio de computadores caiu de 63,7% para 56,6%. Mesmo quando estão em casa, os internautas, em sua maioria (98,7%), preferem o acesso via celular. O uso de banda larga móvel nos domicílios passou de 77,3% para 78,5%.

Ou seja, a mobilidade se consolidou entre os internautas, sugerindo que a maioria pretende estar permanentemente conectada, onde quer que esteja. Nesse caso, cresce consideravelmente a exposição dos cidadãos a conteúdo comercial e político - e aqui não se está falando da qualidade dessa informação, embora se depreenda que, num ambiente quase totalmente fora de controle como as redes sociais, não seja desprezível a possibilidade de disseminação de informações falsas como se fossem verdadeiras, capazes de influenciar parcelas consideráveis da opinião pública. Parece cedo para dizer se esse fenômeno é realmente capaz de decidir eleições, mas é claro que, daqui para a frente, como mostram os números da pesquisa do IBGE, cada vez mais pessoas estarão sujeitas a sofrer o impacto de uma comunicação fragmentada, superficial e frequentemente irresponsável como a que se estabelece nas onipresentes redes sociais.

A utilização da internet é maior no grupo etário entre 20 e 24 anos, com incidência de 88,4%, enquanto no grupo com mais de 60 anos o porcentual ficou em 31,1%. No entanto, é nesse último grupo que o uso de internet mais cresceu entre 2016 e 2017. Houve uma alta de impressionantes 25,9% no período, indicando uma clara tendência.

Apesar da expansão considerável do alcance da internet no País nos últimos tempos, ainda há um contingente significativo de brasileiros excluídos da rede. Um quarto dos domicílios está desconectado, a maioria (34,9%) por falta de interesse. Mas também há muitos que não a acessam porque consideram o serviço muito caro (28,7%) ou então porque nenhum morador sabe usar a internet (22%). Ademais, há enorme disparidade pelo critério de escolaridade - das pessoas sem instrução, apenas 11,2% acessam a internet, ante 96,4% entre as pessoas com nível superior completo. Ou seja, uma parte do Brasil, que já não tem acesso a bens públicos básicos, parece condenada também a ficar de fora da rede que tanto dinamiza a economia e a sociedade.

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