Países emergentes estacionados

A dificuldade dos países emergentes está relacionada à queda de produtividade

Notas & Informações, O Estado de S. Paulo

26 de fevereiro de 2020 | 03h00

Se o mundo inteiro tem enfrentado na última década dificuldades para crescer, essas dificuldades parecem ser maiores nos países em desenvolvimento, diz reportagem da revista The Economist publicada no Estado (Países emergentes parecem condenados a ter baixa produtividade, 19/01). O alerta merece atenção. Não apenas porque essa nova situação contraria a própria concepção que se tem dos países emergentes – economias que, precisamente por não estarem plenamente desenvolvidas, apresentariam maiores potenciais de crescimento –, mas por conter um perigo grave: o risco de que a economia desses países se estabilize num patamar baixo, insuficiente para assegurar um mínimo de bem-estar para a população.

A dificuldade de crescimento dos países emergentes relaciona-se com a queda de produtividade. De acordo com o Banco Mundial, na comparação dos dados das últimas quatro décadas, a atual desaceleração dos países em desenvolvimento é a “mais acentuada, mais longa e mais ampla até o momento”. O Produto Interno Bruto (PIB) per capita das economias em desenvolvimento é quase 14% menor do que teria sido se a produtividade não tivesse perdido impulso.

O quadro das economias emergentes desafia as teorias tradicionais. Por muito tempo se considerou que, para efeitos do aumento de produtividade, copiar seria mais fácil do que inovar. Sob essa lógica, os países emergentes, que mais copiam do que inovam, teriam uma vantagem competitiva em relação aos países ricos, que mais inovam do que copiam.

Entre as causas para a queda da produtividade está a redução dos investimentos, causa, segundo a revista, de toda a desaceleração da produtividade no sul da Ásia, no Oriente Médio e no norte da África. Em relação à Ásia Central e aos países em desenvolvimento da Europa, o menor investimento explica dois terços da estagnação da produtividade.

Entre os fatores para diminuição dos investimentos está a percepção de dificuldades e riscos excessivos para investir nos países emergentes. Nos países ricos ocorreria o oposto. Vendo-se em posição confortável, sem forte concorrência, as grandes empresas teriam pouco incentivo para inovar ou investir. Nas nações emergentes, os tempos atuais parecem trazer obstáculos adicionais, como o crescente protecionismo.

Além de menores investimentos, o recrudescimento do protecionismo e nacionalismo dificulta a transferência de tecnologia, o que sempre foi fator importante para o crescimento da produtividade dos países em desenvolvimento. No passado, as grandes empresas multinacionais eram canais relevantes para melhorar o know-how e as tecnologias usados pelos fornecedores locais.

Outra causa da baixa produtividade, visível no Brasil, é a disparidade de eficiência dos diversos setores da economia, com forte resistência ao aprimoramento das áreas mais atrasadas. “Em qualquer país, algumas partes da economia (como manufatura) são mais produtivas que outras (como agricultura). Mas essa lacuna é extraordinariamente grande nos países em desenvolvimento, onde o moderno e o medieval em geral coexistem”, afirma The Economist. No caso brasileiro, a agricultura é que sai bem na foto, mas é imensa a distância entre os setores que se modernizaram e os que pararam no tempo.

Há também fatores específicos para a queda de produtividade. Na América Latina e no Oriente Médio ela se agravou pela mudança de ritmo e de padrão de crescimento da China. O fim do boom das commodities alterou investimentos e expectativas.

É imperativo prover as condições que possibilitem o crescimento da produtividade. Não bastam bravatas e tampouco soluções simplistas. É preciso avançar, com planejamento e execução responsáveis, numa série de áreas, como segurança jurídica, abertura comercial, inserção na cadeia internacional de produção, infraestrutura e educação. Não há tempo a perder.

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