Pandemia continua a exigir prudência

Ômicron é mais infecciosa, mas parece menos virulenta. Para evitar o pior, são ainda indispensáveis prudência e vacinas

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2022 | 03h05

Assim como no fim de 2020 o mundo foi atingido por uma nova onda da variante Delta, a disseminação no fim de 2021 da Ômicron, muito mais infecciosa, desperta temores de que o pesadelo será reeditado em 2022. Mas as condições são diferentes: quando a Delta surgiu ainda não havia vacinas e, se as lições das últimas ondas tiverem sido aprendidas, há razões para esperar que em 2022 os impactos sanitários do vírus, e suas consequências socioeconômicas, sejam mitigados.

Os cientistas debatem se as novas variantes tendem a ser mais brandas ou a evoluir para patógenos mais agressivos. De todo modo, a produção de anticorpos, seja pelo número de pessoas infectadas ou vacinadas, cresce a cada dia.

A Ômicron está quebrando recordes de infecções, mas estudos recentes sugerem que as mutações do vírus combinadas às taxas de imunização levam a sintomas menos severos. O Imperial College da Grã-Bretanha estima que as pessoas infectadas com a Ômicron têm de 40% a 45% menos chances de hospitalização. Para a Agência Nacional de Segurança Sanitária britânica, esse índice pode estar entre 55% e 69% e o Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis de Johannesburgo sugere até 80% menos chances de hospitalização. Na África do Sul, há indícios de que o pico de casos da Ômicron já teria passado.

Apesar desses indicadores, é preciso cautela. Mesmo que os sintomas sejam leves, se a taxa de infecção for muito alta, a Ômicron ainda pode sobrecarregar hospitais e causar muitas mortes, especialmente nos países com baixas taxas de vacinação e naqueles em que as estratégias “covid zero” levaram a baixos índices de imunidade natural. Há o risco de que as hospitalizações coincidam com altas taxas de infecções dos profissionais da saúde, pressionando os sistemas de saúde. E, para os casos graves, as opções terapêuticas podem ser mais limitadas.

Estimular investimentos em diagnósticos, monitoramento e terapias antivirais é essencial. Mas a prioridade absoluta segue sendo a vacinação. O Centro para o Controle de Doenças dos EUA calcula que os não vacinados têm 8 vezes mais chances de infecção e 25 vezes mais de hospitalização.

Hoje se produz 1,5 bilhão de doses mensais. Mas, além da resistência à vacina em certos segmentos populacionais, o mundo ainda tem o desafio – malogrado em 2021 – de uma distribuição equitativa. Os países ricos seguem estocando vacinas além dos limites razoáveis, enquanto nos pobres só 10% da população recebeu ao menos uma dose.

Muitos virologistas preveem para 2022 uma variante ainda mais infecciosa que a Ômicron. Uma máxima taxa de contágio combinada a uma mínima taxa de virulência pode acelerar a produção de anticorpos e, logo, a transição de uma pandemia perigosa para uma série de endemias incômodas, mas manejáveis. Porém a história desse vírus volátil e traiçoeiro impõe cautela: o pior ainda pode estar por vir. A verdadeira resiliência dependerá de doses extras de prudência e agilidade por parte das autoridades e das populações e, sobretudo, de uma distribuição equânime de vacinas em todo o planeta.

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