Pandemia, trabalho e desigualdade

Mudanças afetam mais pessoas com menor escolaridade e com trabalho mais precário

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2021 | 03h00

A redução do contingente de ocupados em 1,37 milhão de pessoas no ano passado já seria mais do que suficiente para dar a dimensão da tragédia social resultante do impacto da pandemia sobre o mercado de trabalho da Região Metropolitana de São Paulo. Sob a tragédia do desemprego – mais visível não só na capital paulista e demais municípios da Grande São Paulo, mas em todo o País –, no entanto, outra ocorreu e continua a ser observada no mundo do trabalho. É o drama dos 8,2 milhões de pessoas da Região Metropolitana que, mesmo conseguindo manter ou recuperar uma ocupação após a chegada da covid-19 ao País, viram suas condições de trabalho mudar rápida e profundamente – na maioria das vezes, para pior.

Além do aumento da taxa de desocupação, a pandemia teve outros impactos sobre o mundo do trabalho. E foram “intensos”, conforme estudo que acaba de ser concluído pela Fundação Seade, o órgão público responsável pela produção de dados estatísticos sociais e econômicos do Estado de São Paulo.

O estudo mostra que praticamente um quinto dos que se mantiveram ocupados na Região Metropolitana, ou 18% do total, foi afetado “simultaneamente pelos mecanismos adversos de ajuste frente à pandemia”. Entre as mudanças nas condições de trabalho resultantes do ajuste da atividade econômica às condições impostas pela crise sanitária estão redução de jornada, interrupção do trabalho por mais de 15 dias e redução do rendimento.

Para alguns segmentos, as consequências da pandemia sobre o mercado foram mais intensas, e em geral piores, do que para outros. Desigualdades preexistentes à pandemia podem ter se intensificado, mas de forma nem sempre facilmente visível.

O caso da adoção do teletrabalho serve de exemplo para mostrar o impacto desigual das mudanças no mundo do trabalho provocadas pela covid-19. Foi bastante ampla a adoção do trabalho a distância no ano passado, medida positiva para muitas empresas e trabalhadores. O trabalho no ambiente domiciliar foi adotado por 2,2 milhões de pessoas, que representam 26% do total de ocupados. No fim do ano passado, 19,5% continuavam em regime de teletrabalho.

São índices que mostram a extensão da nova forma de trabalhar. Mas a pesquisa mostra que o trabalho em casa foi uma alternativa disponível de forma desigual.

Embora mais de um quarto dos ocupados tivesse acesso a essa forma de trabalho, ela praticamente inexistiu para os trabalhadores com ensino fundamental incompleto. Já entre os ocupados com ensino superior, 1,4 milhão deles, ou 63% do total, puderam trabalhar em casa.

Outra diferença notável ocorre entre trabalhadores do setor privado e funcionários públicos. Entre os assalariados com carteira assinada no setor privado, 34% estiveram em trabalho domiciliar; no setor público, mais da metade dos funcionários puderam trabalhar em casa.

A interrupção do trabalho por 15 dias ou mais, outra consequência da pandemia, afetou 44% dos que conseguiram permanecer no emprego entre 2019 e 2020. Isso equivale a 2,9 milhões de pessoas. A interrupção do trabalho afetou mais os ocupados que, na avaliação da Fundação Seade, “tinham inserção mais precária”.

Trabalhadores nessa situação são os da construção civil, mais afetados do que os dos demais setores; os trabalhadores por conta própria, em especial os informais; os trabalhadores domésticos; e os ocupados de baixa escolaridade, para os quais a interrupção foi muito maior do que a observada entre os trabalhadores com ensino superior completo.

Essas e outras mudanças podem deixar efeitos mais perenes. Um deles é a redução média da jornada de trabalho. No fim do ano passado, 29% dos ocupados tinham jornada menor do que a de antes da pandemia. A consequência foi a redução da renda: 37% dos ocupados passaram a ganhar menos. Os que mais perderam foram, novamente, os com menor escolaridade.

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