Pandemônio nas relações internacionais

O Brasil precisa disseminar o antídoto da mobilização solidária em doses industriais

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2020 | 03h00

“No final do governo militar, Tancredo Neves declarou que se há um consenso de todas as forças políticas e partidárias do Brasil é na política externa. Hoje é o contrário – é o anticonsenso”, afirmou o diplomata Rubens Ricupero em debate na Brazil Conference Harvard MIT – promovida com apoio do Estado – com os ex-chanceleres Celso Lafer, Celso Amorim e Aloysio Nunes, além do professor Hussein Kalout.

Com debatedores de trajetórias tão diversas, saltou aos olhos o consenso sobre o desserviço prestado pelo governo. Como lembrou Celso Lafer, os princípios da diplomacia nacional definidos pelo Conselho do Império e corporificados na Constituição de 88 – “inteligente sem vaidade, franca sem indiscrição, enérgica sem arrogância” – têm sido furiosamente subvertidos pela estratégia do confronto que caracterizou a atuação de Jair Bolsonaro como militar, parlamentar, candidato e agora como presidente. “Sua diplomacia opera não na base da cooperação, mas do combate. Um combate a inimigos imaginários, fruto de uma visão de mundo que tem muito pouca relação com a realidade.” Para Aloysio Nunes, essa “tendência fantasmagórica” faz do governo uma “continuidade da campanha eleitoral” que agride os alicerces da diplomacia: a memória institucional (violentada pela “tábula rasa” dos cânones do Itamaraty), o realismo político (substituído por “uma perseguição de quimeras”) e o pragmatismo (degradado pela subserviência, nem “sequer aos EUA, mas a Donald Trump”).

A pandemia, ponderou Ricupero, pode acentuar tendências globais como o desgaste do sistema multilateral do pós-guerra, o declínio da liderança dos EUA e o acirramento de sua disputa com potências como China, Rússia e Irã. Além disso, apontou Kalout, a economia global terá de articular “um trinômio que aglutine a bioeconomia, o salto tecnológico e o desenvolvimento social”. Para os debatedores, a tradição brasileira do “pluralismo de contatos” oferece oportunidades de protagonismo, como um sistema global de prevenção de pandemias; um modelo que potencialize a produção agropecuária e minimize o impacto ambiental; a segurança alimentar; ou a cooperação com países em desenvolvimento (oferecendo, por exemplo, lições aprendidas com a implementação do SUS ou do Bolsa Família).

Ricupero apelou para uma plataforma de reconstrução das pontes detonadas pelo governo. Pouco depois, ele, seus colegas de mesa e os ex-chanceleres Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Francisco Rezek publicaram um manifesto catalogando agressões desta “antidiplomacia” a princípios constitucionais, como o apoio a medidas coercitivas em vizinhos; o voto na ONU pela ampliação de embargo unilateral; a aprovação oficial de assassinato político; ou a política de negação aos povos autóctones. “O sectarismo de ataques inexplicáveis à China e à OMS, somado ao desrespeito à ciência e à insensibilidade às vidas humanas, tornou o governo objeto de escárnio e repulsa internacional”, impondo “custos de difícil reparação como o desmoronamento da credibilidade externa, perdas de mercados e fuga de investimentos.”

Em réplica que antes de invalidar essas alegações as corroborou, o chanceler Ernesto Araújo ofendeu os signatários (“paladinos da hipocrisia”) e falou de “grandes acordos comerciais” e um “Brasil com mais prestígio do que jamais teve junto a quem conta”. Quem? O ministro não disse. Já seus críticos poderiam citar desde publicações prestigiadas pela elite econômica (Economist, Financial Times) ou médica (Lancet) à Comissão de Direitos Humanos da ONU. Mas, para Araújo, vozes como essas são expressão de uma “bolha”.

Como advertiu Aloysio Nunes, a pandemia escancara mazelas brasileiras, mas pode “despertar forças adormecidas na sociedade”. A mobilização solidária “é um belíssimo antídoto contra o populismo – a ideia de que uma pessoa resolve tudo sozinha”. O País precisa disseminar esse antídoto em doses industriais. Isso deve isolar ainda mais o governo, mas é a melhor maneira de reverter o isolamento internacional no qual ele está precipitando a Nação.

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