Pânico persiste, BC lidera reação

Instituição anuncia medidas para enfrentar a crise por meio da política de crédito

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2020 | 03h00

O terror continua devastando os mercados, como um tsunami global, apesar das ações conjuntas anunciadas por governos do mundo rico, dos cortes de juros e das centenas de bilhões de dólares lançadas em operações de emergência. Em São Paulo as ações caíram de 12,53% no começo do pregão, na Bolsa de Valores, a B3, e de novo as negociações foram interrompidas. Acionado pela quinta vez em março na bolsa paulista, o circuit breaker foi usado também na de Nova York, ontem cedo, quando as perdas superaram o limite de 7%. Na Ásia e na Europa novos tombos já haviam marcado a segunda-feira, prenunciando a continuação do pânico da semana anterior. O temor de uma recessão, comentaram em São Paulo fontes do setor financeiro, impedia a recuperação das cotações. De novo a sombra da crise de 2008, a maior em cerca de 80 anos, escurecia os mercados em todo o mundo.

É grande o risco de uma recessão de um semestre, segundo vêm afirmando analistas há algumas semanas. O ano poderá terminar com algum crescimento acumulado, mas depois de uma queda feia durante alguns meses. A economia americana deve crescer 0,4% em 2020, segundo a nova estimativa do banco Goldman Sachs. A projeção anterior apontava uma expansão de 1,2%.

No Brasil, as estimativas têm caído seguidamente, segundo a pesquisa Focus, do Banco Central (BC). No relatório divulgado ontem, a mediana das projeções do Produto Interno Bruto (PIB) indica um aumento de 1,68%. Um mês antes ainda se estimava um avanço de 2,23%. Nesse intervalo o ganho previsto para a produção industrial diminuiu de 2,33% para 1,63%.

Se há alguma novidade positiva, é o reconhecimento, na área econômica, dos efeitos da epidemia. Os economistas e dirigentes do BC foram os primeiros a reagir e continuam na frente. Ontem cedo o banco anunciou duas medidas para enfrentamento da crise por meio da política de crédito.

A primeira facilita a renegociação de operações de crédito de empresas e de famílias, dispensando os bancos de aumentar o provisionamento. Segundo estimativa citada no comunicado, cerca de R$ 3,2 trilhões de créditos são qualificáveis para a repactuação, se houver interesse das partes.

A segunda medida amplia a capacidade de uso do capital dos bancos para renegociações e novas concessões de empréstimos. Com ampliação da folga de capital, isto é, da diferença entre o capital efetivo e o capital mínimo requerido, os bancos poderão repactuar financiamentos e realizar novas operações. Com ampliação da folga em R$ 56 bilhões, haverá um acréscimo de R$ 637 bilhões na capacidade de oferta de crédito.

Um novo corte de juros era o próximo passo previsto ontem à tarde no mercado. Com a política de juros, a liberação de recursos do compulsório e as novas medidas na área de crédito, o BC continua liderando, de longe, as ações oficiais contra os efeitos econômicos do vírus. No resto do governo, nem a gravidade da epidemia foi plenamente reconhecida.

Na China, origem do vírus e segunda maior economia do mundo, os negócios foram devastados no primeiro bimestre. As bolsas ainda reagem mais aos danos conhecidos do que às promessas oficiais de recuperação. As vendas no varejo nos primeiros dois meses foram 20,5% menores que as de um ano antes. A produção industrial foi 13,5% inferior e as vendas de imóveis ficaram 34,7% abaixo das de janeiro e fevereiro de 2019.

Novos estímulos monetários foram anunciados em Pequim e o governo fala de recuperação econômica a partir do segundo trimestre. Mas nenhum discurso otimista foi suficiente, ontem, para reanimar as bolsas.

O mercado de petróleo também continuava, ontem, sujeito à disputa entre Rússia e Arábia Saudita, num cenário dominado pela expectativa de menor demanda de combustíveis em 2020. Essa expectativa já era conhecida no fim do ano. Demanda de combustíveis em queda é normalmente sinal de economia fraca. Não contaram esse detalhe ao presidente Bolsonaro. Mais de uma vez ele exibiu estranheza diante das tensões por causa do barateamento do petróleo. Teria entendido, talvez, se tivesse consultado seu Posto Ipiranga.

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