Para a indústria, é mudar ou perecer

A dinamização da indústria exige atenção aos novos padrões tecnológicos e ambientais; a boa notícia é que os novos dirigentes industriais parecem saber disso

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2022 | 03h00

Embora tenha crescido 4,5% no ano passado, a indústria está longe de ter superado a crise que se estende há pelo menos dez anos e afeta, sobretudo, o segmento de transformação. A expansão em 2021 parece expressiva, mas é menor do que a de toda a economia – o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 4,6%, segundo o IBGE – e, nos dois últimos trimestres do ano passado, a indústria registrou queda. A desindustrialização, para a qual economistas e dirigentes empresariais vêm apontando há tempos, não foi interrompida. São muitos os desafios para superá-la.

Governos que não conseguem ver além dos interesses imediatos e particulares de seus integrantes, como o de Jair Bolsonaro, dificilmente compreenderão a dimensão de desafios dessa natureza. Felizmente, com a possibilidade de sua substituição pelo voto, maus governantes não são eternos. E, no setor produtivo, parece haver firme e consciente disposição de encarar os novos problemas, com base em diagnósticos realistas, e buscar soluções condizentes com as exigências contemporâneas. Pode-se ter esperança.

Ao tomar posse como presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), em fevereiro, o empresário Josué Gomes da Silva havia mostrado a necessidade de recuperar o dinamismo da indústria na economia nacional e debater a reindustrialização do País, num mundo em que os processos produtivos se modernizam e se modificam rapidamente. Em recente entrevista ao jornal Valor Econômico, o novo economista-chefe da Fiesp, Igor Rocha, disse que o grande desafio da indústria de transformação é definir uma nova política industrial.

Essa nova política, mostrou Rocha, deve estar livre dos vícios do passado – entre eles o protecionismo e a interminável determinação com que parte do setor buscava vantagens tributárias temporárias ou perenes – e ter, entre suas diretrizes, a sustentabilidade, a redução das emissões de carbono e o foco em setores de média e alta tecnologia. Não é pouco, para um segmento já às voltas com tantos obstáculos para recuperar seu papel no crescimento econômico. Mas é necessário.

Aos problemas antigos, que são conhecidos, se somam os que as transformações do sistema de produção, distribuição e comercialização em todo o mundo estão impondo a governos, empresas, trabalhadores e consumidores. São mudanças cuja compreensão será vital não apenas para o crescimento, mas até mesmo para a sobrevivência das empresas, em particular as da indústria de transformação.

A reforma tributária, que simplifique o sistema e propicie alguma redução do peso dos impostos e taxas, de modo a estimular os investimentos, continua sendo uma meta prioritária que o setor produtivo não pode abandonar. Da mesma forma, a recuperação da infraestrutura, para propiciar mais confiabilidade e redução de custos para a produção, transporte e comercialização de bens e serviços, continua indispensável.

Mas políticas industriais como as que vigoraram até há poucas décadas são coisas do passado, diz o novo economista-chefe da Fiesp. A preocupação deve, daqui para a frente, estar voltada para os segmentos com maior potencial de produção ambientalmente sustentável, que atenda aos objetivos resumidos no acrônimo para meio ambiente, preocupação social e governança – ESG (em inglês). Trata-se de um movimento global, de que a indústria brasileira não poderá escapar, a despeito de já ter problemas internos específicos que tendem a retardar a transformação de seu processo produtivo.

Só assim o Brasil poderá superar a desindustrialização que Igor Rocha e outros analistas consideram precoce. A redução do tamanho da indústria no PIB ocorre quando as economias passam de renda média para renda alta. Outros segmentos crescem mais, daí a perda do peso relativo da indústria na economia nacional. Mas isso ocorreu aqui sem que o País alcançasse a condição de renda alta, daí seu caráter prematuro. A renda gerada pela indústria caiu, da mesma forma que sua produtividade.

Com visão clara da imensidão do problema, é possível, ainda que muito difícil, começar a superá-lo.

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