Paulo Guedes é um péssimo ator

Ao G-20, tenta transmitir um otimismo que seria risível, não fosse ele um dos responsáveis pelo atual quadro trevoso

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2022 | 03h05

Faz mais de três anos que o ministro da Economia, Paulo Guedes, se esforça diariamente para não borrar a maquiagem da personagem que lhe foi atribuída pelo então candidato Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018 – e que ele incorporou como se fosse o grande papel da sua vida.

Apresentado ao País e ao estrangeiro àquela época como o esteio liberal do governo, o grande indutor das reformas estruturais do Estado e uma espécie de selo de garantia de respeito aos pilares macroeconômicos, hoje, das duas uma: ou Guedes ainda acredita genuinamente naquele Brasil que só existe em suas apresentações, o que revelaria uma mente absolutamente desconectada da realidade, ou o próprio ministro tem consciência do embuste, mas segue representando um papel, e mal, porque lhe falta brio para deixar um governo que, dia sim e outro também, o submete a toda sorte de humilhações.

Em um vídeo gravado para a reunião dos ministros das finanças e presidentes de bancos centrais dos países do G-20, Guedes voltou a mentir sobre supostos feitos do governo e a distorcer dados do País para seus colegas estrangeiros. Com menos de um minuto de pronunciamento, o ministro da Economia afirmou sem qualquer constrangimento que, “mesmo lidando com o coronavírus, o governo manteve o foco na responsabilidade fiscal e nas reformas estruturais necessárias para uma recuperação econômica sustentável”.

É mentira. Havia a legítima escusa, consubstanciada por decisão do Supremo, de que as limitações da Lei de Responsabilidade Fiscal não poderiam restringir a adoção de políticas voltadas à mitigação dos efeitos sanitários e econômicos da pandemia sobre cidadãos e empresas. Mais do que uma autorização judicial, tratava-se de um imperativo moral. Mas o que se viu depois foi a dilapidação dos fundamentos macroeconômicos do País em nome dos interesses eleitorais do presidente da República.

A fraqueza política de Bolsonaro o fez refém do Centrão, que agarrou com afinco a oportunidade inédita de se apoderar de um quinhão do Orçamento da União como nunca antes. Guedes assistiu impassível ao desmonte do teto dos gastos públicos, à ampliação dos recursos destinados a abastecer o “orçamento secreto” e à redução deliberada de verbas para políticas nas áreas de educação, saúde, infraestrutura e tecnologia para bancar benesses eleitoreiras concedidas por seu chefe a grupos que dizem apoiá-lo.

Quanto às “reformas estruturais”, ora, a única que foi aprovada no atual governo foi a reforma da Previdência, desenvolvida e negociada na administração de Michel Temer.

Guedes teve a desfaçatez de afirmar ainda que, “no meio ambiente, nós mantivemos os compromissos de sustentabilidade alcançados no Acordo de Paris e na COP 26”. Na realidade, o governo dizimou o soft power do País na seara ambiental por ser leniente com a exploração ilegal de riquezas naturais e com o combate ao desmatamento ilegal.

Ao dizer que “o Brasil continuará surpreendendo positivamente”, Guedes tenta transmitir um falso otimismo que seria risível, não fosse ele um dos agentes diretamente responsáveis pelo quadro trevoso que aí está.

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