Paulo Guedes na Montanha Mágica

Em Davos, o ministro da Economia falou em nome de um estranho país, mais próspero, bem governado e com inflação em firme declínio

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2022 | 03h00

O ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a Davos como representante do Brasil, mas acabou falando em nome de outro país, mais ajustado e com perspectivas bem melhores que as indicadas pelas deploráveis condições brasileiras. A cidade alpina onde se reúne o Fórum foi celebrizada por Thomas Mann num romance publicado há quase um século, em 1924. O título do livro, A Montanha Mágica, parece ganhar novo sentido com as palavras de Guedes, criadoras de um país muito diferente daquele produzido pelo desgoverno de seu chefe, o presidente Jair Bolsonaro. Neste mundo mais conhecido, onde milhões batalham duramente para sobreviver, o dia a dia é marcado pelo desemprego, pela inflação acelerada, pelo empobrecimento, pelo uso inepto e irresponsável do poder público e por ameaças frequentes à ordem institucional.

“O pesadelo de vocês está apenas começando”, disse o ministro a um grupo de jornalistas, numa referência aos sinais de enfraquecimento econômico dos países mais desenvolvidos. “Vai começar a recessão aqui fora”, acrescentou. “Eles estão começando a entrar no inferno e estamos saindo.” Mas o desemprego no Brasil, no primeiro trimestre, ficou em 11,1% e pouco deve ter mudado a partir daí. Os desocupados nos Estados Unidos, em abril, eram 3,6% da força de trabalho urbana (no campo o desemprego é pouco significativo). Na maior parte dos países desenvolvidos a taxa raramente alcança ou supera 7%. Além disso, o desempregado, nesses países, tem condições de vida geralmente melhores que as de boa parte dos brasileiros empregados.

Quanto ao dinamismo econômico, o País fica bem atrás de outros emergentes e também de muitos avançados. Se o País crescer 2% neste ano, como sugere o ministro da Economia, pouco se afastará do desempenho médio dos últimos do último decênio ou do período bolsonariano. Mas a última projeção oficial do governo indica uma expansão de apenas 1,5%, número próximo das últimas estimativas do mercado. Segundo a projeção recém-divulgada pela ONU, a produção mundial aumentará 3,1% em 2022, bem acima das taxas mais otimistas calculadas no Brasil.

Guedes também mostrou otimismo em relação à alta de preços. A inflação brasileira, segundo ele, pode ter atingido o pico e em seguida começar a diminuir. “Fomos os primeiros a combater a inflação, zeramos o déficit e subimos os juros”, afirmou. Seu comentário incluiu uma crítica ao atraso dos bancos centrais do mundo rico. Não há sinais claros, no entanto, de recuo duradouro da inflação.

A taxa apontada pela prévia deste mês, de 0,59%, é menor que a de abril, mas é também a mais alta para um mês de maio desde 2016. Além disso, o aumento de preços em 12 meses chegou a 12,20%, superando a variação acumulada até o mês anterior, 12,03%. Se o recuo começar agora, quanto tempo será necessário para a inflação anual chegar a níveis toleráveis?

O aumento de juros de fato começou mais cedo no Brasil do que nos Estados Unidos, mas isso ocorreu, obviamente, porque a inflação brasileira já era bem mais alta. Mas o Banco Central do Brasil também insistiu, por muito tempo, em avaliar como passageiro o surto inflacionário, e nesse ponto errou tanto quanto o Federal Reserve, seu par americano.

O ministro Guedes também falou de um país diferente do Brasil ao proclamar uma vitória da política fiscal. A melhora das contas públicas foi claramente facilitada pela inflação e em grande parte reflete, portanto, um desarranjo da economia brasileira. Também é preciso lembrar o dinheiro engolido, neste ano, pelo sumidouro do orçamento secreto e a transferência das decisões sobre gastos ao ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, representante principal do Centrão no Executivo. Enfim, ninguém deveria esquecer as bondades eleitoreiras deixadas como custos para o próximo governo. Nenhum desses desarranjos parece existir no país apresentado pelo ministro Guedes na Montanha Mágica. Mas neste outro país onde vivem os brasileiros a única façanha com jeito de mágica é a sobrevivência da maioria das famílias no dia a dia. 

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