Perigo no mercado global

Ruim para todos, o cenário é especialmente ameaçador para o Brasil

O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2019 | 03h00

Guerra comercial, tensões geopolíticas e risco de nova recessão assombram os mercados mundiais, travando o intercâmbio e paralisando investimentos. Ruim para todos, o cenário é especialmente ameaçador para o Brasil. Enquanto o governo enfrenta um difícil ajuste de suas contas, caem as vendas ao exterior. A Organização Mundial do Comércio (OMC) realçou a piora do quadro global. Pelas novas projeções, o volume das trocas internacionais de mercadorias deve aumentar 1,2% neste ano. As estimativas de abril apontavam crescimento de 2,6%. O avanço calculado para 2020 passou de 3% para 2,7%. Mas os fatos poderão ser piores que as previsões, advertem economistas da OMC: segundo eles, os números projetados para o próximo ano dependem de “um retorno a relações de comércio mais normais”.

Neste ano, o crescimento do comércio perdeu vigor em todo o mundo, segundo o documento divulgado pela organização. As novas estimativas são baseadas nessa experiência e também numa reavaliação das condições da economia global.

Agora se calcula crescimento mundial de 2,3% neste ano e no próximo. A projeção anterior indicava 2,6% para 2019 e 2020. As economias desenvolvidas devem crescer 1,7% neste ano e 1,4% no próximo. Para os países em desenvolvimento (incluídos os emergentes) as taxas indicadas são 3,4% e 3,8%. Para a América do Sul, a América Central e o Caribe as previsões são 0,1% e 2,4%. Pelas projeções correntes no País, o crescimento brasileiro ficará entre 0,8% e 1% neste ano e perto de 2% em 2020. A média sul-americana foi muito deprimida pelas condições da Venezuela, país ainda condenado a severa recessão.

A Ásia continuará puxando o comércio internacional, com exportações crescendo 1,8% em 2019 e 3,8% no próximo ano, de acordo com a OMC. Para a América do Norte as estimativas apontam 1,5% e 3,6%. O desempenho dos países sul-americanos, centro-americanos e caribenhos deve ser bem mais modesto, com o volume exportado aumentando 1,3% e 0,7% nos anos considerados.

O Brasil vem perdendo fôlego no comércio há alguns anos. Ainda mantém, na conta de mercadorias, superávit suficiente para atenuar os déficits em serviços e rendas e manter administrável o saldo negativo nas transações correntes.

Neste ano, as exportações de mercadorias proporcionaram ao País, entre janeiro e setembro, receita de US$ 167,38 bilhões, 6% menor que a de um ano antes, pela média dos dias úteis. O superávit comercial ficou em US$ 33,79 bilhões. Este resultado foi 19% inferior ao contabilizado nos mesmos nove meses de 2018.

Além de limitar o volume vendido, condições desfavoráveis no mercado internacional têm derrubado preços de alguns produtos básicos.

Também é preciso levar em conta que as vendas de manufaturados, 8% menores que as de janeiro a setembro de 2018, em valor, têm sido afetadas pela menor demanda resultante da recessão argentina. O ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a questionar a importância da Argentina para o crescimento brasileiro. Os efeitos comerciais da crise no país vizinho, sensíveis muito especialmente na indústria automobilística, deveriam ser suficientes para desfazer essa dúvida.

O superávit na conta de mercadorias tem sido essencial para a segurança externa da economia brasileira. O aperto econômico e as condições de emprego poderiam ser muito piores se o déficit em transações correntes fosse menos administrável, se os investidores externos ficassem assustados e se o País perdesse reservas cambiais, mantidas em torno de US$ 380 bilhões. Crises cambiais são muito dolorosas.

Há motivos muito fortes para olhar com preocupação as más condições da economia mundial e do comércio exterior. Não está claro se o governo percebe a importância da segurança econômica externa. A resposta parece assustadoramente negativa, quando o presidente confronta gratuitamente a comunidade internacional, assusta investidores e cria atritos com importadores de produtos brasileiros.

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