Perplexidade no setor elétrico

Governo suspende programa de economia de energia da indústria e mantém térmicas acionadas a todo vapor

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2021 | 03h00

Criado em agosto no auge da crise hídrica, o programa de incentivo à economia de energia das indústrias foi suspenso nesta semana, sem maiores explicações do governo. Foram apenas três meses de duração e uma economia suficiente para abastecer milhões de residências. Por meio da Resposta Voluntária da Demanda (RVD), empresas que se dispunham a diminuir o consumo ou deslocar a produção para horários menos concorridos recebiam compensação financeira, já que a medida diminuía a necessidade de acionamento de termoelétricas mais caras e poluentes.

O que motivou a criação do programa foi a gravidade da crise no setor elétrico. Sem chuvas suficientes para abastecer os reservatórios das hidrelétricas, o País viveu sob o risco de apagões, pois o governo se recusou a adotar um racionamento para evitar prejuízo político à tentativa de reeleição do presidente Jair Bolsonaro. Outras iniciativas foram adotadas em paralelo, como a importação de energia e a flexibilização das vazões de usinas e dos limites de transferência entre regiões. É inegável, porém, que o baixo crescimento da economia neste ano, mesmo quando comparado a um 2020 afetado pela covid-19, contribuiu para evitar o pior.

É por isso que causa espanto o fato de que o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) menciona o “avanço positivo das perspectivas hidrometeorológicas” para justificar o fim do programa. O órgão afirma que foi uma “decisão de gestão”. 

Quem lê a nota do operador pensa que o Brasil passou por um verdadeiro dilúvio nas últimas semanas. Mas é o mesmo ONS quem informa que os reservatórios do Sudeste e do Centro-Oeste, que concentram 70% da geração hídrica nacional, registravam nível de armazenamento de apenas 18,57% no dia 8 de novembro – apenas dois pontos acima dos 16,47% de 6 de outubro, o pior deste ano. 

A situação melhorou marginalmente. A PSR, maior consultoria do setor no País, avalia que o risco de racionamento em 2022 varia de 2,1% a 8,8%, dependendo das premissas adotadas. O próprio ONS admite que as termoelétricas continuarão acionadas e a um custo mais alto que as ofertas que a indústria fazia ao governo para deslocar o consumo. No mesmo dia em que acabou com o programa, o órgão afirmava, segundo o Ministério de Minas e Energia, que a situação estava “longe de caracterizar uma normalidade operativa”.

A indústria, que se preparou para evitar os blecautes, não entendeu nada. Fato é que o governo manterá ligadas térmicas a diesel e óleo combustível que produzem energia a R$ 2,5 mil por megawatt-hora (MWh) em vez de aceitar propostas de redução de consumo de até R$ 500 por MWh. 

A iniciativa abandonada pelo governo, mais um símbolo do improviso habitual, é muito mais efetiva que as campanhas de incentivo à economia de energia pela população, cuja margem de manobra para poupar é muito inferior à da indústria, mas que, ironicamente, continuará em vigor até o fim do ano. Programas semelhantes existem no mundo todo e funcionam de forma permanente, um caminho que o Brasil deveria seguir.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.