Perspectivas para a segurança cibernética

Multiplicam-se os ataques de milícias digitais, os crimes e os indícios de espionagem

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2020 | 03h00

Ao acelerar bruscamente a digitalização das relações sociais e de trabalho, a pandemia ampliou também os riscos cibernéticos. Crimes contra pessoas e empresas, ataques de milícias digitais e indícios de espionagem multiplicam-se exponencialmente, ameaçando a ordem pública, o Estado Democrático de Direito e a confiança na Quarta Revolução Industrial. Enquanto o Brasil se prepara para decisões estratégicas relacionadas à tecnologia 5G, pilares do Estado como a Justiça Eleitoral ou o Ministério da Saúde foram abalados por ataques, minando a credibilidade do poder público.

De todos os tipos de crimes, os cibernéticos são os que crescem mais rapidamente. Explorando os medos e incertezas precipitados pela atual instabilidade social, econômica e sanitária, os criminosos digitais multiplicaram suas agressões a um nível alarmante. Estima-se que, de todas as atividades maliciosas na internet, os crimes cibernéticos respondam por 80%. Segundo o Global Risks Report 2020 do Fórum Econômico Mundial, nos próximos 10 anos os ataques cibernéticos serão a segunda maior ameaça aos negócios.

“Enquanto crimes como assaltos ou roubos são mais visíveis, o crime cibernético é em grande parte escondido, levando muitas pessoas a subestimar o seu risco efetivo ou a probabilidade de se tornar uma vítima”, disse o secretário-geral da Interpol, Jürgen Stock.

Tradicionalmente os governos são responsáveis por combater o crime. “Entretanto, a dimensão singular do espaço cibernético provou que os governos não têm e não terão todas as capacidades necessárias para combater a ameaça do crime cibernético sozinhos”, constatou o Fórum. “Com efeito, muitas das capacidades necessárias residem no setor privado, de modo que as empresas privadas devem ser parte da solução.”

Para estimular esta cooperação, o Fórum reuniu mais de 50 representantes de organizações-chave públicas e privadas numa Parceria Contra o Crime Cibernético, com foco na promoção de princípios para a colaboração pública e privada na repressão aos ecossistemas do crime cibernético. A iniciativa é um pilar para a arquitetura de uma cada vez mais indispensável aliança independente para combater o crime cibernético global.

Para subsidiar essa aliança, o Fórum também lançou, com a Universidade de Oxford e 100 especialistas dos negócios, governos, academia e sociedade civil, a Future Series, uma linha de produção de estudos sobre riscos cibernéticos. 

Na primeira edição – Segurança cibernética, tecnologias emergentes e riscos sistêmicos – os pesquisadores circunscreveram quatro tecnologias que transformarão a paisagem digital nos próximos 5 a 10 anos: conectividade ubíqua; inteligência artificial; computação quântica; e abordagens de nova geração para gestão de identidade. Os riscos sistêmicos associados a essas tecnologias são tais que, sem uma ação coordenada entre a comunidade tecnológica, as lideranças corporativas e governamentais e a comunidade internacional, os esforços contra as ameaças cibernéticas podem gerar o efeito reverso, erguendo barreiras para o fluxo de dados e o comércio transfronteiriços e fricções entre os sistemas nacionais que, ao invés de dificultar o trabalho dos agressores, o facilitarão.

Da comunidade tecnológica, espera-se que identifique as lacunas que estão se abrindo nos sistemas de defesa, a fim de projetar e oferecer soluções eficazes. As lideranças corporativas e governamentais devem focar em novas ferramentas de educação, orientação e governança para abordar os riscos associados às novas tecnologias. Isso é essencial para que todas as partes interessadas compartilhem de um paradigma e de uma agenda comuns sobre o problema. A comunidade internacional precisará concertar políticas e instituições para impedir que a segurança cibernética aja como uma barreira à adoção de novas tecnologias e seu valor transformador.

“Estas novas tecnologias transformarão o nosso mundo”, conclui o Fórum. “Mas somente se forem seguras e nós pudermos dar aos nossos cidadãos e negócios a confiança de que elas o farão.”

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