Piada de mau gosto

Como pode ter êxito um governo cujo presidente trata questões sérias como piada?

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2020 | 03h00

O ministro da Economia, Paulo Guedes, reuniu-se na terça-feira passada com representantes do Vem Pra Rua e do Movimento Brasil Livre, grupos que ganharam projeção fazendo protestos contra o lulopetismo e se alinham à agenda econômica do governo de Jair Bolsonaro. No encontro, durante um almoço na casa do secretário de Desestatização, Desinvestimento e Mercados, Salim Mattar, Guedes pediu apoio dos movimentos às reformas. Disse que o governo tem “15 semanas para mudar o Brasil”, em provável referência ao fato de que, no segundo semestre, o Congresso estará desmobilizado em razão da campanha para as eleições municipais.

Que dois altos funcionários do governo tenham deixado de lado seus afazeres para pedir o apoio e a opinião de movimentos de rua acerca das reformas econômicas que o governo pretende aprovar já é bastante inusitado. Mais inusitado ainda foi o cronograma apresentado por Guedes: em 15 semanas, o governo Bolsonaro pretende fazer o que foi incapaz nas 61 semanas de seu mandato até agora.

E não foi capaz porque se recusou a estabelecer as necessárias pontes com o Congresso e porque o próprio governo parece não se entender sobre o teor de algumas reformas que diz pretender apresentar, como a tributária e a administrativa. Em vez de pedir apoio às ruas, o governo Bolsonaro deveria se dedicar mais a melhorar sua interlocução com os parlamentares. Mas essa é uma perspectiva cada vez mais remota.

O presidente tem demonstrado crescente desrespeito pelas instituições democráticas e pelo próprio cargo que ocupa. Ontem, em escancarado deboche, Bolsonaro acertou-se com um humorista para imitá-lo – com faixa presidencial e usando a estrutura da Presidência, inclusive carro oficial – e provocar jornalistas em frente ao Palácio da Alvorada. Quando os repórteres fizeram perguntas ao presidente sobre o fraco desempenho do PIB e sobre as conturbadas negociações com o Congresso acerca do manejo do Orçamento, Bolsonaro pediu que o humorista respondesse em seu lugar. Com isso, mostrou que tem quem o substitua quando não fizer falta.

É ocioso esperar que um governo cujo chefe se conduz dessa maneira e que trata questões sérias como piada seja bem-sucedido na tarefa de convencer a opinião pública e os parlamentares da seriedade de seus propósitos. Assim, entende-se por que Paulo Guedes tenha sentido a necessidade de procurar o apoio de grupos supostamente capazes de mobilizar parte da sociedade em favor de suas pautas, pois, se depender do empenho do presidente, há enorme risco de ver naufragar importantes reformas que já deveriam estar encaminhadas.

O problema é grave e não se limita às provocações de Bolsonaro ao Congresso e à imprensa. O governo foi incapaz até agora de deixar claro qual reforma tributária pretende fazer – e não foram poucas as vezes em que Guedes foi desmentido pelo presidente a respeito de ideias nessa seara. Também não se sabe qual será o formato da reforma administrativa, mas Bolsonaro já deixou claro que quer mudanças apenas “suaves” na estrutura do serviço público.

Ou seja, entre o país de Bolsonaro, que faz do exercício da Presidência uma comédia pastelão, e o país de Paulo Guedes, em que reformas complexas podem ser aprovadas em apenas 15 semanas, desconsiderando todas as circunstâncias, encontra-se o Brasil real – onde cerca de 23 milhões de desempregados, desalentados e subempregados são obrigados a viver a dura realidade da crescente falta de perspectiva.

Ante a desconexão do governo com a realidade, resta esperar que o Congresso continue a agir com responsabilidade e acelere a aprovação das reformas, não por força de manifestações estimuladas pelo governo, mas porque sem essas mudanças o Brasil estará condenado à mediocridade, muito aquém de seu potencial e dos merecimentos de sua população, mas condizente com o espírito da atual administração.

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