PIB, incertezas e temores

Alta em fevereiro pode não se repetir. Cenário político e internacional continua incerto. Inflação e desemprego preocupam

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2022 | 03h05

O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 0,6% em fevereiro na comparação com o mês anterior e de 1,2% na comparação com o resultado de um ano antes, estimado pelo Monitor do PIB da Fundação Getulio Vargas (FGV), é bastante razoável, pois sugere um ritmo de atividade da economia mais intenso do que aquele que vem sendo projetado por instituições financeiras nacionais e organizações internacionais. O Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, revisou para cima sua previsão para o crescimento da economia brasileira neste ano, o que talvez até merecesse alguma comemoração. Mas a mudança foi de 0,3% para 0,8%, o que significa um desempenho ainda pífio do PIB neste ano, inferior à alta em 12 meses do índice da FGV. As previsões predominantes entre analistas do mercado financeiro não passam de expansão de 1% em 2022.

Embora tenha aparentado resultado melhor do que o de outras pesquisas, o Monitor da FGV não as contradiz. A recuperação observada em fevereiro é menos brilhante do que os dados sugerem. Em primeiro lugar, a alta se deve em boa parte ao fato de a base de comparação ser baixa. O resultado de janeiro tinha sido 1% menor do que o do mês anterior. Assim, o crescimento em fevereiro ainda é insuficiente para compensar a perda de janeiro. Vista isoladamente, a expansão agora anunciada pode induzir a erros de interpretação.

Há outro fator que recomenda exame cauteloso dos dados. “O crescimento da economia brasileira em fevereiro continua sendo explicado, principalmente, pelo desempenho do setor de serviços”, avalia a coordenadora do estudo da FGV, Juliana Trece. O setor foi o que mais sentiu o impacto da pandemia. Muitos serviços presenciais foram interrompidos nos meses que se seguiram à chegada da covid-19 ao País. Sua recuperação vem sendo observada desde meados do ano passado, com altas taxas de crescimento na comparação com 2020. Mas o ritmo da recuperação vem diminuindo, o que projeta expansão menos expressiva desse setor nos próximos meses.

Os outros dois setores da economia apresentam resultados bem menos expressivos do que o de serviços. A indústria encolheu 0,4% em fevereiro na comparação com janeiro e 1,0% na comparação anual. O PIB agropecuário, de sua parte, depois de alta de 5,3% em janeiro, registrou queda de 5,3% no mês seguinte. Do lado da demanda, o consumo das famílias cresceu 2,2% na comparação com janeiro e o consumo do governo teve alta de 0,1%. A Formação Bruta de Capital Fixo (que mede os investimentos em máquinas, equipamentos, construção e outros) cresceu 1,3%.

O cenário para os próximos meses é marcado por incertezas e problemas reais. A eleição do novo presidente da República e a invasão da Ucrânia são os elementos que alimentam as incertezas. A inflação alta, que está exigindo juros altos, e a persistência de taxas muito elevadas de desemprego lançam dúvidas sobre a intenção e a capacidade de consumo da população. Diante desse cenário, a FGV mantém a projeção de crescimento do PIB de 0,6% neste ano. 

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