PIB puxado pelo avanço da vacinação

Beneficiado pela vacina e pela relação presencial, o setor de serviços continuou liderando a recuperação da economia

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2022 | 03h00

Com avanço de 1% no primeiro trimestre, a economia brasileira cresceu 4,7% em 12 meses, manteve o ritmo anual de 2021 (4,6%) e continuou pouco acima do padrão anterior à crise da pandemia, em 2020, quando o Produto Interno Bruto (PIB) recuou 3,6%. O desempenho da indústria continuou modesto, como tem sido há anos, e a atividade foi puxada pela recuperação do setor de serviços, o mais atingido pela pandemia. Graças à vacinação, puderam reanimar-se negócios como viagens, hotelaria, alimentação e serviços pessoais, dependentes do contato presencial. Foi uma vitória do bom senso contra os desatinos do presidente Jair Bolsonaro. Responsável principal pelo atraso da imunização, ele ainda se empenhou na distribuição de fake news sobre as vacinas contra o coronavírus.

O balanço dos primeiros três meses ficou dentro das expectativas e, embora positivo, em nada contribui para uma elevação das projeções econômicas para 2022 e 2023. A produção industrial, 0,1% maior que a do trimestre final de 2021, foi 1,5% inferior à de um ano antes e cresceu 3,3% em 12 meses, bem menos que a dos serviços (5,8%). Nem sequer se esboçou, nos últimos três anos e meio, uma política de revitalização e de modernização da indústria, um setor emperrado na maior parte do último decênio.

Mas a negligência quanto às condições do crescimento tem sido muito mais ampla. Praticamente nada se tem feito, em Brasília, para estimular ou mesmo manter o investimento em máquinas, equipamentos e obras, a chamada formação bruta de capital fixo. No primeiro trimestre, o valor aplicado nesse conjunto de meios de produção foi 3,5% menor que o dos três meses precedentes e 7,2% inferior ao de um ano antes. O total acumulado em quatro trimestres foi 10,1% maior que o dos 12 meses anteriores, mas a base de comparação inclui grande parte da pior fase da pandemia.

O desastre na área do investimento fica mais claro quando se examina outro indicador. Entre os primeiros três meses de 2021 e os três primeiros de 2022 a taxa de investimento fixo caiu de 19,7% para 18,7% do PIB. Nos últimos 20 anos a relação raramente superou 20%. Para sustentar um crescimento econômico anual na faixa de 4% a 5% o País deveria investir, no entanto, algo próximo de 25% do PIB em meios físicos de produção, como rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, máquinas, instalações industriais, sistemas de geração e distribuição de energia e redes de água e saneamento.

O investimento bancado pelo setor público quase sumiu há vários anos. Concessões e privatizações seriam a alternativa mais evidente, mas o poder federal pouco tem avançado nessa área. No setor privado tem havido algum investimento, mas limitado pela escassez de financiamento e pela pobreza das perspectivas econômicas, essenciais para a decisão de investir.

Uma nova etapa de firme crescimento dependerá da instalação de um novo governo em 2023. Mesmo um governo sério gastará boa parte de seu mandato, no entanto, reparando danos e preparando o País para tomar um rumo e avançar.  

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