Pisando forte no freio da inflação

Copom promete medidas duras contra a alta de preços, mas nenhum banco central tem remédio conhecido contra o desgoverno

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2021 | 03h00

A inflação supera as previsões, a economia cresce menos que o esperado, as expectativas são ruins, o cenário internacional piorou e será preciso um aperto maior para conter a alta de preços. São sombrias, para usar uma palavra suave, as projeções do Banco Central (BC) para o último ano de mandato do presidente Jair Bolsonaro. Pelo menos tão sombrias, pode-se acrescentar, quanto as do mercado. Crescimento econômico de 0,50% em 2022 e inflação de 5,02%, acima do teto da meta, são estimativas incluídas no boletim Focus, baseado em números de instituições financeiras e de consultorias. Mas os técnicos do mercado andaram piorando, até recentemente, as condições econômicas esperadas para 2023 e 2024.

É fácil entender, portanto, por que a palavra “desancoragem” aparece quatro vezes na ata da última reunião do Copom, o Comitê de Política Monetária do BC, formado por diretores da instituição. Um dos objetivos permanentes do Comitê é manter boas expectativas no mercado quanto à evolução dos preços. Quando há segurança e as expectativas estão ancoradas, a tarefa de manter a estabilidade de preços é mais simples. Não é preciso cuidar do pessimismo de quem toma decisões no mundo financeiro e em outros mercados. Houve, recentemente, sinais de desancoragem, e esse problema foi incluído com destaque na pauta da política monetária. “Ancoragem” aparece duas vezes na ata divulgada na terça-feira.

O trabalho será complicado e o “ciclo de aperto monetário”, segundo o Copom, “deverá ser mais contracionista” do que seria em condições menos desafiadoras. A piora das expectativas e o risco de agravamento das contas fiscais tornam recomendável uma política mais dura, com juros muito elevados. Por enquanto, o plano é manter a elevação de 1,5 ponto porcentual. Com isso, os juros básicos chegam a 9,25% neste fim de ano e devem ser aumentados para 10,75% na reunião programada para o começo de fevereiro.

No mercado, a taxa esperada para o fim de 2022 chegou a 11,50%. Mas os juros poderão ir além desse nível, pode-se apostar, se as pressões inflacionárias se mantiverem fortes. Isso dependerá, em boa parte, da evolução de receitas e despesas federais no próximo ano, quando o presidente estiver mais duramente empenhado na busca da reeleição. Insegurança fiscal, câmbio e inflação estão fortemente conectados, como já se verificou durante a maior parte deste ano.

Além de terminar em condições muito ruins, o atual mandato presidencial deixará um péssimo legado para quem assumir o posto em janeiro de 2023, segundo as apostas do mercado e do Copom. O Comitê reafirma o compromisso de conduzir a inflação à meta, mas sem fixar claramente um prazo. Não mais se fala de um ajuste realizável até o fim de 2022. O “horizonte relevante” mencionado na ata inclui também o ano seguinte. O aperto poderá prolongar-se até lá, mesmo com alguma redução gradual dos juros básicos. A última projeção do mercado situa em 8% a taxa básica esperada para o fim de 2023.

Juros elevados, portanto, deverão prevalecer na primeira metade do novo mandato presidencial, se o BC persistir em domar a inflação e em restabelecer a ancoragem das expectativas. Essa ancoragem poderá estar recuperada em 2023, se o aperto prometido para 2022 der o resultado pretendido. Para isso a política deverá, como já se anunciou mais de uma vez, avançar “significativamente em território contracionista”.

Mas essa decisão também implica, segundo a ata, “suavização das flutuações econômicas e fomento do pleno-emprego”. É difícil imaginar esses efeitos durante o período de aperto mais forte, com crédito muito caro e inacessível a grande parte dos empresários e dos consumidores. Mas a redução da inflação e a melhora das expectativas tenderão a resultar, depois de algum intervalo, em recuperação dos negócios e do emprego. Nenhum ajuste monetário, no entanto, produzirá efeitos significativos e duradouros enquanto o poder central falhar nas funções e responsabilidades de um verdadeiro governo. Para isso nenhum banco central tem remédio.

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