Pobre Rio

Witzel foi além de seus já conhecidos desdouros e cruzou uma perigosa linha ao gravar uma conversa com o vice-presidente Hamilton Mourão e publicá-la nas redes sociais

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2020 | 03h00

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), é um expoente de uma cepa de políticos que pautam seu comportamento pela caótica dinâmica das redes sociais, e não pela ética, pela moralidade pública e pela institucionalidade que distinguem os cargos que ocupam, tanto no Legislativo como no Executivo, em todas as esferas de governo. Fizeram bastante sucesso nas eleições de 2018 e, por ora, nada sugere que perderão força na eleição deste ano.

O fascínio por essa tal “comunicação direta” com o distinto público por meio das redes sociais, que em alguns casos beira a adicção, não poupa políticos como Witzel de vexames e, nos casos mais graves, de sérias violações de natureza ética, incompatíveis, portanto, com a dignidade que há de revestir o modo como se portam publicamente.

Há dias, Witzel foi além de seus já conhecidos desdouros e cruzou uma perigosa linha ao gravar uma conversa com o vice-presidente Hamilton Mourão e publicá-la nas redes sociais. A bem da verdade, nada de impróprio foi dito durante aquela conversa. O governador do Rio e o então presidente em exercício discutiram um plano de ajuda federal ao Estado para socorrer as vítimas das chuvas de verão. O problema é que Mourão não sabia que a conversa estava sendo gravada e, pior, transmitida por Wilson Witzel aos seus seguidores nas redes sociais. Com toda razão, o vice-presidente condenou a atitude. “O governador Wilson Witzel diz que foi um fuzileiro naval. Então eu acredito que esqueceu da ética e da moral que caracterizam as Forças Armadas quando deixou o corpo de fuzileiros navais”, afirmou Mourão.

Para justificar o injustificável, Witzel deu uma desculpa que não para em pé. O Palácio Guanabara emitiu nota explicando que o governador gravou e transmitiu a conversa com o então presidente em exercício a fim de “tranquilizar os moradores do Rio que sofrem com as enchentes”. Ora, fosse mesmo para isso, e não para gerar audiência nas redes sociais e dar vazão a seus insondáveis desígnios políticos, Wilson Witzel poderia transmitir a mesma tranquilidade à população divulgando a parceria firmada com o governo federal pelos canais institucionais de comunicação do governo do Estado, pela imprensa ou mesmo por meio de suas redes sociais, mas depois da conversa, e não durante, sobretudo diante do desconhecimento da gravação por um dos interlocutores.

Além de fazer parte do notório grupo de políticos que privilegia a informalidade das redes sociais em detrimento de uma comunicação mais republicana, Wilson Witzel figura em outra galeria nada honrosa: a de maus governadores do Rio de Janeiro. Mas sobre isso, justiça lhe seja feita, nenhuma responsabilidade pesa sobre os seus ombros.

Desde o infeliz governo de Chagas Freitas, o último governador do Estado a ser eleito por via indireta, em 1978, o Rio padece sob mandatários pessimamente escolhidos pela população. De Leonel Brizola a Wilson Witzel, todos, sem exceção, deram sua contribuição para a degradação do Estado que já foi a capital política, econômica e cultural do País. Alguns deles, como Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão podem contar em detalhes como é a experiência de ser interno do sistema prisional fluminense.

São 38 anos de escolhas mal feitas. Todo esse tempo, mais do que indicar a baixa qualidade dessas lideranças que se expõem ao escrutínio público, diz tanto sobre o baixo grau de exigência do eleitorado do Rio como sobre sua incapacidade de aprender com os erros. Brizola foi eleito duas vezes. Cabral foi reeleito e só deixou o poder diante dos efeitos das jornadas de junho de 2013. Ciente do que se passava no Guanabara, a população elegeu seu vice, Pezão. Anthony Garotinho fez governadora a sua mulher, a desconhecida Rosinha. Longa é a lista de infortúnios.

Nenhum deles postou um tanque de guerra em Laranjeiras. Se chegaram ao poder, foi pelo voto. Cabe ao eleitorado escolher melhor.

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