Política de juros e incerteza política

Juros baixos facilitam a gestão da enorme dívida pública e a reativação econômica

O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2020 | 03h00

Nada melhor que um novo corte de juros para acompanhar um novo tombo da economia, quando a reação imediata depende do Banco Central (BC). Cortados na quarta-feira, os juros básicos passaram de 3% para 2,25% ao ano, a menor taxa da série histórica. O serviço foi completado na manhã seguinte, quando a instituição publicou seu Índice de Atividade Econômica (IBC-Br). Em abril o indicador despencou 9,73%, chegou ao menor nível desde 2006 e ficou 15,09% abaixo do ponto registrado um ano antes. Em março havia caído 6,16%, refletindo o primeiro impacto da pandemia no consumo e na produção de bens e serviços. Divulgado mensalmente, o IBC-Br é usado como prévia do Produto Interno Bruto (PIB), calculado a cada três meses pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os números podem divergir, mas o cálculo do BC é geralmente um bom sinalizador do estado de saúde da economia e de sua tendência.

O corte de juros foi anunciado no começo da noite de quarta-feira pelo Copom, o Comitê de Política Monetária do BC. O mau estado da economia, dentro e fora do País, aparece no início da nota distribuída logo depois da reunião. A contração no segundo trimestre deve ser maior que no primeiro, informa o comunicado. Além disso, “a incerteza permanece acima da usual sobre o ritmo de recuperação no segundo semestre deste ano”. Quanto à inflação, todas as projeções apontam trajetória moderada em 2020 e no próximo ano. Há riscos, como sempre, e até maiores que o usual, mas há espaço para novo afrouxamento da política. Mais que isso, a conjuntura “continua a prescrever estímulo monetário extraordinariamente elevado”. A resposta concreta é mais um corte de 0,75 ponto porcentual.

Qual o próximo passo? A maior parte do mercado havia previsto a redução oficializada na reunião do Copom. Em seu comunicado, o comitê deixou espaço para mais uma redução da taxa. Se houver mais um ajuste, “será residual”, segundo a nota. Essa possibilidade foi comemorada no mercado, na quinta-feira de manhã. Ao meio-dia o Ibovespa, principal índice da bolsa, subia 1,53%. Mas investidores também celebravam, segundo a Agência Estado, o novo IBC-Br: o mercado havia previsto uma queda de 11%, mas o tombo havia ficado em 9,73%. Mais cedo, os negócios haviam recuado, em reação à captura de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, senador e filho do presidente. Mas notícias mais atraentes prevaleceram no resto da manhã, incluída a queda do IBC-Br, próxima de 10%, mas inferior aos 11% previstos no mercado.

Essa leveza de humor parece ter faltado aos membros do Copom, no dia anterior, a julgar pela nota distribuída. A previsão de um estímulo meramente “residual”, numa próxima reunião, contrasta com a admissão de muita incerteza sobre a recuperação no segundo semestre. Novas decisões dependerão, indica o final da nota, de revisões do cenário econômico, da evolução da pandemia e de “uma diminuição das incertezas no âmbito fiscal”.

Em notas anteriores, o compromisso com a pauta de ajustes e reformas foi mencionado como condição para o afrouxamento monetário. Além disso, a ata da reunião de maio já citou, com destaque, a importância dos dados da pandemia para as novas decisões. Mas parece haver, agora, algo mais que uma repetição. A extensão do estrago no segundo trimestre está mais clara. Além disso, a incerteza sobre o ritmo da recuperação é indicada com maior ênfase. A referência à “diminuição das incertezas no âmbito fiscal” parece ganhar peso como contraponto: apesar das dúvidas sobre a recuperação econômica e a evolução da doença, a insegurança sobre o ajuste fiscal permanece como entrave possível aos estímulos. Mais detalhes sobre o assunto envolveriam, pode-se supor, uma inconveniente invasão do território político.

Juros baixos facilitam a gestão da enorme dívida pública e a reativação econômica. Juros dependem, no entanto, das perspectivas de inflação e da confiança do mercado na política econômica. É essa a advertência. O presidente Bolsonaro deveria levá-la em conta.

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