Pouco espaço para reagir

Não há espaço nas contas públicas para estímulos fiscais nem segurança, neste momento, para o Banco Central cortar os juros, embora a inflação permaneça contida

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2019 | 03h00

O Brasil se destaca entre as maiores economias do mundo pelo peso de sua dívida pública, pelo péssimo estado de suas contas fiscais e por sua vulnerabilidade a qualquer choque financeiro ou cambial. Por isso, o País se inclui na lista daqueles com menor espaço para reagir a novos desafios, se as tensões no comércio global se agravarem ou se os mercados forem afetados mais duramente pelas incertezas econômicas e geopolíticas. Apesar de sinais de estabilização da economia global, depois de um mau começo de ano, o horizonte continua repleto de riscos importantes, segundo a avaliação preparada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para a reunião ministerial do Grupo dos 20 (G-20) neste fim de semana. O evento, na cidade japonesa de Fukuoka, reunirá ministros da Economia e presidentes de bancos centrais das maiores potências econômicas.

A prioridade imediata é resolver as tensões comerciais, enquanto se procura modernizar o sistema internacional de comércio, escreveu a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, num comentário sobre as condições da economia mundial e os maiores perigos à frente. As tensões centradas na disputa comercial entre Estados Unidos e China são especialmente importantes, porque uma escalada poderá afetar direta e indiretamente um grande número de países. Mas os sinais de alerta apontam um conjunto maior de riscos.

Um Brexit desordenado, isto é, um divórcio sem acordo entre Reino Unido e União Europeia, poderá afetar a confiança e pressionar os mercados financeiros. Além disso, o grande endividamento público e privado, facilitado por um longo período de juros muito baixos, aumentou a vulnerabilidade de empresas e de Tesouros nacionais e levou a uma piora das condições de financiamento.

Passados pouco mais de dez anos do último grande choque financeiro, o risco de novos abalos é de novo um importante fator de preocupação. Nos Estados Unidos, assinala o relatório do FMI, a relação entre a dívida corporativa e o Produto Interno Bruto (PIB) está em nível historicamente alto.

Esse conjunto de riscos é apenas parte dos sinais inquietantes mencionados no documento. Há também problemas estruturais, identificados quando se examina o baixo potencial de crescimento observado em muitas economias nos últimos dez anos ou mesmo num período pouco maior. As taxas de crescimento do PIB por habitante permanecem abaixo das médias históricas em muitos países. O envelhecimento das populações e a baixa expansão da produtividade são destacados como explicações.

Não há, em relação a esses pontos, uma referência direta ao Brasil, até porque o relatório é sintético. Em outros documentos, com análises mais extensas das condições brasileiras, tem havido menções ao escasso potencial de crescimento, associado a fatores como falhas da infraestrutura, mercado fechado e formação deficiente de capital humano.

Políticas fiscais estimulantes são recomendadas, neste momento, a países com algum espaço nas contas públicas. Em países nessas condições até um afrouxamento provisório das políticas de ajuste pode ser saudável, de acordo com o relatório. Políticas monetárias devem permanecer acomodatícias, como tem ocorrido nos Estados Unidos e principalmente na zona do euro. Quando o relatório do FMI foi divulgado, economistas americanos já discutiam a hipótese de uma redução de juros pelo Federal Reserve (Fed), com inversão, portanto, da política seguida nos últimos dois anos.

O Brasil está obviamente fora dessas possibilidades. Não há espaço nas contas públicas para estímulos fiscais nem segurança, neste momento, para o Banco Central cortar os juros, embora a inflação permaneça contida. O governo insiste em deixar qualquer novo estímulo – mesmo compatível com as condições fiscais – para depois de aprovada a reforma da Previdência. Mas isso nada tem a ver com prudência fiscal ou monetária. A crise prolongada e o alto desemprego podem realçar a urgência da reforma, admitiu um membro da equipe econômica.

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