Pragmatismo no Oriente Médio

Há uma chance de o Irã retomar acordo nuclear e de a diplomacia ganhar força. Mas as sombras de incerteza são grandes

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2022 | 03h05

Enquanto o choque na Ucrânia propaga ondas pelo planeta, as placas tectônicas na sua região mais belicosa se movem. A tentativa de ressuscitar o acordo nuclear de 2015 entre seis potências e o Irã, torpedeado por Donald Trump em 2018, entrou em sua rodada final, enquanto inimigos de Teerã – Israel, Emirados Árabes, Egito, Marrocos e Bahrein – estreitaram laços de defesa. O pragmatismo está no ar. Mas, no Oriente Médio, o ar é sempre mais volátil.

Os dois últimos anos foram favoráveis à diplomacia. O isolamento regional de Israel diminuiu, com a normalização das relações com Estados árabes do Golfo por meio dos Acordos de Abraão. Em Bagdá, houve uma cúpula até há pouco improvável entre Egito, Turquia, Catar, Arábia Saudita e Irã – os dois últimos são protagonistas do sangrento conflito entre xiitas e sunitas.

Há razões para otimismo. Mas o Oriente Médio costuma ser cruel com os otimistas.

Se as negociações para o acordo nuclear não forem concluídas logo, serão inúteis. Quando ele estava vigente, o tempo estimado para o Irã construir uma bomba nuclear era de um ano. Agora, é de menos de um mês.

O Irã levantou uma nova condição: que os EUA removam de seu índex de terroristas a Guarda Revolucionária Islâmica. O aiatolá quer o acordo para aliviar as sanções, mas seria difícil não defender sua guarda pretoriana e legião estrangeira no Oriente Médio, tão difícil quanto é para o presidente Joe Biden recompensá-la. Os EUA tentam condicionar a desindexação a um compromisso do Irã de desescalar suas agressões. Israel e seus aliados receberam a notícia com desconfiança e temem que a retomada do acordo empodere o Irã.

Washington é visto com desconfiança por adversários e aliados. O Irã sabe que uma repactuação naufragará se Trump voltar em 2025. Os aliados viram como a “pressão máxima” de Trump, incitando uma jihad entre sunitas do Golfo e xiitas iranianos, foi um tiro pela culatra. Quando o Irã explodiu instalações petrolíferas sauditas, Trump lavou as mãos. A Guarda Islâmica e seus prosélitos – o Hezbollah na Síria e no Líbano, os rebeldes houthis no Iêmen e as milícias no Iraque e na Síria – continuam seus ataques.

Nem China nem Rússia querem um Irã com armas nucleares, mas, se as negociações forem rompidas, isso pode acirrar seus atritos com o Ocidente, que podem instrumentalizar o Irã como um contrapeso à influência americana.

De resto, os Acordos de Abraão negligenciaram uma solução para os palestinos, que se veem traídos pelos Estados árabes. Nas últimas semanas, dois policiais e quatro civis israelenses foram mortos, segundo Israel, por palestinos com ligações com o Estado Islâmico. A confluência da Páscoa e do Ramadã, em abril, é historicamente um momento de atritos na Terra Santa.

O Irã pode ainda escalar as hostilidades no Golfo para minar a aliança árabe-israelense, e os radicais sunitas podem explorar as instabilidades para suscitar o jihadismo contra governos vistos como apóstatas. 

Nos últimos anos houve uma lufada de pragmatismo no Oriente Médio. Rivais estão conversando. Mas ainda não o suficiente a ponto de silenciar o rufar dos tambores de guerra.

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