Precoce e voraz

Prematura e rápida, a desindustrialização alcança setores de tecnologia avançada

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 03h30

A perda de participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) não é um fenômeno apenas brasileiro. Outros países viram crescer a importância do setor de serviços em detrimento do peso da indústria em suas economias. Mas o que se observa aqui tem aspectos peculiares – e preocupantes com relação à posição do Brasil na economia mundial, à sua capacidade de competir e à qualidade do emprego no futuro.

O fechamento de pelo menos 17 fábricas por dia ao longo dos últimos seis anos, como mostrou reportagem do Estado (17/1), é a dramática expressão numérica de uma mudança prematura, muito rápida e voraz, para a qual o País – seus dirigentes políticos, seu empresariado, seus trabalhadores, sua sociedade – não tem encontrado resposta adequada. Os dados são de levantamento feito pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) para o Estadão/Broadcast. E não são muitos os que buscam entender as causas e evitar a aceleração da desindustrialização, pois é disso que efetivamente se trata.

O anúncio, há pouco, da decisão da Ford de encerrar suas atividades produtivas no Brasil, onde chegou há mais de 100 anos, é apenas o mais recente de uma lista que começou a crescer há mais tempo. Já no ano passado a japonesa Sony havia anunciado a interrupção de sua linha de produção no Brasil. Só no Estado de São Paulo, 4.451 indústrias de transformação fecharam suas portas em 2015.

Estratégias globais dos grandes grupos explicam parte das decisões de encerrar as atividades no Brasil. Em muitos casos, por razões de custos ou de localização, é mais vantajoso concentrar a produção em unidades não necessariamente sediadas no País.

Em boa parte, porém, como apontaram especialistas em economia industrial, a rápida perda do peso da indústria na economia brasileira – de cerca de 35% do PIB na década de 1980 para 11,2% no ano passado – decorre do ambiente pouco favorável aos negócios existente no País. Há muitos anos estudos comparativos apontam o Brasil como um país cujas regras tributárias e normas jurídicas inibem negócios e investimentos.

Mesmo que a redução do peso da indústria no PIB seja um fenômeno mundial e que as restrições burocráticas e legais dificultem a produção manufatureira, a rapidez e a precocidade das perdas da indústria brasileira preocupam. “O Brasil está longe de ser uma sociedade que já comprou todos os bens industriais e passou a gastar mais com serviços”, observou Juliana Trece, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

O chamado custo Brasil, um conjunto de ineficiências sistêmicas que oneram a produção no País – como o peso excessivo do regime tributário, a carência de infraestrutura, a deficiência na formação de mão de obra, entre outros fatores –, certamente inibe investimentos e retarda a modernização e o crescimento do setor manufatureiro. O atraso no processo de reformas de que o País necessita agrava o problema.

Mas o Brasil está também muito atrasado no que se refere à modernização do parque produtivo e à adoção das tecnologias que caracterizam o novo modelo de produção industrial ao qual aderiram os países mais avançados. E carece de programas eficazes de preparação dos trabalhadores para as novas exigências profissionais impostas por essas transformações. O resultado tem sido a perda constante da produtividade do trabalho e dos fatores de produção.

A desindustrialização normalmente atinge primeiro o setor de menor intensidade tecnológica. No Brasil, já alcança setores intensivos em tecnologia e conhecimento, mostrando também nesse aspecto sua precocidade.

A indústria de transformação, mesmo com menor peso no PIB, continua a ser vital para a inovação tecnológica, a geração de superávits comerciais, a elevação da produtividade da economia e a oferta de empregos de qualidade, assim contribuindo para melhorar a qualidade de vida.

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