Presidente do baixo clero

Bolsonaro cercou-se de quem entende do riscado: entregou-se de corpo e alma ao Centrão

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2020 | 21h00

Há cerca de 90 dias, o ministro da Economia, Paulo Guedes, prometeu “fazer quatro grandes privatizações nos próximos 30, 60, 90 dias”. Não se tem notícia de que alguma estatal tenha sido vendida de lá para cá. Ao contrário: o presidente Jair Bolsonaro declarou na terça-feira passada que “não pode queimar estatais, tem que vender por uma finalidade”.

A tal “finalidade” poderia ser a racionalização das contas públicas e o fortalecimento do Estado para que este seja atuante onde se faz necessário, seja no fomento ao desenvolvimento, seja na prestação de serviços essenciais, seja amparando os desassistidos e igualando oportunidades. 

A demanda urgente dos brasileiros que perderam renda na pandemia de covid-19 certamente não pode esperar pela venda de estatais ou pelas reformas, mas um robusto programa de privatizações, junto com um pacote de mudanças na estrutura administrativa e fiscal do Estado, seria muito bem recebido pelos investidores privados, restabelecendo a confiança e estimulando a economia.

Bolsonaro obviamente não quer nada disso, porque sempre foi contra as privatizações, porque não gosta de reformas e, sobretudo, porque governar dá trabalho e causa desgaste político. O presidente, que só pensa em reeleição, prefere o conforto da demagogia. “É dinheiro na veia do povo”, disse Paulo Guedes, outrora “superministro” e hoje mero despachante do populismo bolsonarista, referindo-se ao programa de transferência de renda que Bolsonaro quer criar para multiplicar sua clientela eleitoral.

Para esse fim, Bolsonaro cercou-se de quem entende do riscado: entregou-se de corpo e alma ao Centrão, que vai se assenhoreando da articulação do governo no Congresso. Depois de ter conquistado a liderança do governo na Câmara, o bloco de partidos notórios pelo fisiologismo e pela demagogia agora se adornou das vice-lideranças, tomando o lugar de deputados “ideológicos” que seguiram lealmente Bolsonaro e acreditavam na balela de que o presidente do baixo clero encarnava a “nova política”.

No novo programa de governo de Bolsonaro, muito diferente do vendido na campanha, a reforma administrativa é apenas um arremedo para cumprir tabela e mal se fala de reforma tributária, praticamente enterrada neste ano. Em lugar disso, o presidente flerta descaradamente com a irresponsabilidade fiscal, com direito a pedaladas em precatórios e drible no teto de gastos, para injetar “dinheiro na veia do povo”.

Em meio ao justificado espanto causado pelas notícias de que o governo planeja transformar dívida em receita para bancar o tal “dinheiro na veia”, Bolsonaro preferiu queixar-se dos críticos e pediu a eles “sugestões”. Pois bem: especialistas reunidos pelo Estado para dar as tais sugestões foram praticamente unânimes ao dizer que programas de transferência de renda dependem da reformulação dos atuais programas sociais, corte de gastos, reformas e privatizações. Tudo o que Bolsonaro já vetou ou vem sabotando.

Com ar grave, o presidente disse a apoiadores que, se ninguém lhe apresentar “uma solução racional”, vai “tomar aquela decisão que o militar toma: pior do que uma decisão mal tomada é uma indecisão”. E ameaçou: “Eu não vou ficar indeciso. O tempo está correndo, está o tique-taque correndo, está chegando janeiro de 2021, precisamos de alternativa para 20 milhões de pessoas que não vão ter o que comer a partir de janeiro do ano que vem”.

Nesses termos, a tal “decisão” de Bolsonaro só pode ser uma: mandar às favas os escrúpulos de consciência fiscal. Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro do governo Bolsonaro, explicou didaticamente ao Estado quais seriam as consequências de “sair do trilho” e “adotar medidas populistas”: “Os juros vão aumentar, a inflação vai voltar e o investimento vai cair”. Para que isso não ocorra, Mansueto lembrou o óbvio: “A sociedade civil tem de pressionar o governo a seguir uma trajetória que não seja populista”, pois do contrário “o custo será muito alto” – e quem irá pagá-lo em grande parte serão os pobres e os paupérrimos de Bolsonaro.

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