Pressões e satisfações da vida moderna

A vida contemporânea, com seu bem-estar, tem alguma tendência à atomização social

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2020 | 03h00

Um dos valores mais associados à modernidade é a transformação. A geração atual, em particular, é protagonista e testemunha de rápidas transformações demográficas, tecnológicas e no mercado de trabalho. Mas acaso os contemporâneos estão mais satisfeitos com suas vidas? Como estas transformações afetam suas relações sociais e familiares ou o equilíbrio entre o trabalho e o lazer? O Pew Research Center vem conduzindo pesquisas nessas áreas – notadamente em meio aos norte-americanos, mas os resultados podem ser estendidos para a sociedade ocidental.

Ante a pergunta sobre o que dá “muito” sentido e satisfação à vida, a família aparece consistentemente em primeiro. Depois vem estar ao ar livre, com amigos e animais de estimação. Por esta medida, a fé religiosa é parelha à leitura e à carreira profissional. Mas entre os que encontram muita satisfação em sua fé, mais da metade diz que é “a fonte mais importante” de sentido em sua vida. Nos EUA, 20% dizem que a religião é a fonte mais importante, atrás apenas da família (40%).

A vida moderna exige boa dose de multitarefas: metade dos pesquisados disse que está frequentemente tentando fazer duas coisas ao mesmo tempo, e 60% se sentem ao menos algumas vezes atarefados demais, embora apenas 12% se sintam assim todo o tempo.

Que dizer da próxima geração? Entre os “grandes problemas” para adolescentes, 70% apontam a angústia e a depressão, seguidos por bullying (55%), drogas (51%), álcool (45%), pobreza (40%), gravidez juvenil (34%) e gangues (33%). Três em dez se sentem tensos ou nervosos quase diariamente e a mesma proporção diz que gostaria de ter mais amigos.

A percepção sobre o impacto da tecnologia é ambivalente. A cada dez profissionais, quatro dizem que as novas tecnologias tornaram seu trabalho mais árduo, enquanto três dizem que tornaram menos. Três em dez adultos dizem estar frequentemente estressados pela quantidade de informações que precisam ponderar para tomar decisões importantes. As mídias sociais também causam uma mistura de sensações negativas e positivas, mas são vistas mais como fonte de conexões com outras pessoas (para 70% dos entrevistados) do que de experiências que despertam o sentimento de solidão (para 30%).

Cerca de três quartos dos adultos (73%) se sentem satisfeitos com a sua vida social, e mais de um quarto, “muito” satisfeito – quase a mesma proporção dos que se sentem insatisfeitos. Apenas 8% se sentem “muito” insatisfeitos. Perguntados especificamente sobre conexões sociais acolhedoras ou solidárias, mais de metade (54%) declarou conhecer pessoas com as quais poderia contar todo o tempo (ou quase). Mas consideráveis 33% disseram que só algumas vezes sentiam poder contar com pessoas para apoiá-los, e 10% disseram que nunca (ou quase) sentiam isso.

Ao que parece, a condição social afeta os laços de amizade entre os contemporâneos. Nos EUA, 25% das pessoas com mais renda mencionaram seus amigos como uma fonte principal de sentido para suas vidas, contra apenas 14% entre os de baixa renda. A probabilidade de brancos mencionarem a amizade é duas vezes maior que entre negros e hispânicos.

Enquanto muitas pessoas dizem encontrar sentido em sua família (70%), filhos (34%), cônjuge ou parceiro (20%) e amigos (19%), apenas 7% citaram a participação em algum grupo, comunidade ou igreja. E se 79% se dizem satisfeitos com a qualidade de vida em sua comunidade local, apenas 16% se sentem muito ligados a ela.

Embora não de todo conclusivos, esses são indícios de que a vida contemporânea, com todas as suas ofertas de bem-estar e conectividade, comporta alguma tendência a um maior isolamento e atomização social. Buscar meios de contrabalançar esta tendência se mostra um desafio ainda maior quando se constata que ela é mais intensa entre os mais pobres e jovens.

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