Previsões cautelosas do mercado

Projeções indicam recuperação lenta, mas com início de arrumação fiscal

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2021 | 03h00

Apesar da alardeada recuperação em V, o Brasil levará quase dois anos para voltar ao nível de produção de 2019, se os fatos confirmarem as novas expectativas do mercado, contidas no primeiro boletim Focus divulgado neste ano. Depois de ter encolhido 4,36% em 2020, o Produto Interno Bruto (PIB) crescerá 3,40% em 2021 e 2,50% em 2022, segundo a mediana das projeções captadas pelo Banco Central (BC). Completado esse trajeto nada brilhante, o PIB de 2022 ficará apenas 1,36% acima do contabilizado três anos antes, no início do mandato do presidente Jair Bolsonaro. Se nenhuma grande transformação ocorrer, com a recuperação em V o País apenas confirmará sua posição entre os mais lentos na corrida global.

Muitos outros países também levarão mais de um ano para retomar a atividade anterior à pandemia. Essa previsão vale para economias avançadas, emergentes e em começo de desenvolvimento. Vários desses países, no entanto, avançaram mais velozmente que o Brasil em anos anteriores à crise da covid-19. Além disso, a vacinação contra o novo coronavírus já foi iniciada em dezenas de países. Essa vacinação é essencial para a segurança da retomada econômica.

Nenhum surto de otimismo aparece nas expectativas sintetizadas na pesquisa Focus. A perda econômica estimada para 2020 é pouco menor que a indicada no boletim da semana anterior (4,40%). Mas a mediana das projeções para 2021 também diminuiu, passando de 3,49% para 3,40%. Quatro semanas antes estava em 3,50%.

A indústria deverá contribuir muito modestamente para a retomada. A produção industrial, com aumento estimado em 4,78%, continuará bem abaixo do nível anterior à crise, depois da queda de 5% calculada para 2020. No último boletim divulgado em dezembro, o produto industrial de 2021 seria 5% maior que o do ano anterior.

O volume e o valor da produção brasileira continuarão, portanto, a depender excessivamente da agropecuária, o setor mais dinâmico e mais eficiente da economia nacional. Não há informações diretas sobre isso no boletim semanal publicado pelo BC. Mas o superávit comercial estimado em US$ 55,10 bilhões dependerá, com certeza, basicamente do agronegócio, como tem dependido há muitos anos.

A safra de grãos 2020-2021 deverá ser novo recorde, segundo o Ministério da Agricultura, mas isso dependerá, em boa parte, do sol, da chuva e dos ventos. Essas potestades têm exibido mau humor com frequência antes desconhecida. São reações, dizem especialistas em meteorologia, aos desaforos de quem favorece queimadas e outras agressões ao meio ambiente.

Os alertas têm sido inúteis. Não só em relação à pandemia, mas também diante dos desarranjos climáticos, o presidente Bolsonaro prefere o negacionismo e insiste em provocar os deuses do tempo. Com esse comportamento ele também confronta os importadores de produtos brasileiros e põe em risco muitos bilhões de dólares. A demora dos governos europeus em confirmar o acordo comercial com o Mercosul é uma conhecida consequência do antiambientalismo bolsonariano.

O crescimento econômico vai depender também do enfrentamento dos problemas fiscais. As finanças do governo foram duramente afetadas pelas medidas de combate aos efeitos da pandemia. Essas medidas foram necessárias, mas agora é preciso implantar um programa de ajuste das contas oficiais. Conter o aumento do endividamento público será uma tarefa especialmente importante, mas isso dependerá, em primeiro lugar, de um compromisso presidencial.

Sem esse compromisso, os investidores terão dificuldade para apostar na responsabilidade fiscal, ameaçada por ministros gastadores, por aliados fisiológicos e pelo empenho do presidente em garantir sua reeleição. Na virada do ano, o mercado manteve as principais estimativas do cenário fiscal, como o déficit primário (sem juros) equivalente a 10,60% do PIB em 2020 e a 3% em 2021. A projeção para este ano pressupõe uma política compatível com as expectativas dos financiadores do Tesouro. Esta é a principal demonstração de otimismo em relação ao novo ano.

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