Prognósticos e terapias para o mundo do trabalho

Investimento em diversidade, igualdade e equidade gera empresas mais eficientes e sociedade mais justa

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2020 | 03h00

Em seu relatório O Mundo do Trabalho e a Covid-19, a OIT estima que só no segundo trimestre a perda em horas de trabalho será equivalente a 305 milhões de empregos. Mas um dos distúrbios mais perversos provocados pela pandemia é o impacto desigual sobre quem já padecia com a desigualdade. Antes dela, 7,1% dos trabalhadores viviam na extrema pobreza. Entre 2014 e 2017, a renda global do trabalho caiu de 53,7% para 51,4% em relação à renda do capital. Quase 40% da força de trabalho mundial está empregada em setores de alto risco e 107 países não reconhecem os direitos dos trabalhadores de se unirem em sindicatos. Só no primeiro mês da crise, a renda dos informais – frequentemente sem direitos trabalhistas e proteções sociais – encolheu 60%.

“Os jovens correspondem a mais de 1 em 10 empregados em setores severamente afetados. Junto às rupturas na educação, isso os coloca sob o risco de se tornarem uma ‘geração lockdown’ que carregará os impactos da crise por muito tempo”, diz a OIT. “As mulheres são desproporcionalmente empregadas em setores criticamente afetados como serviços, hospitalidade, turismo, e também são impactadas pelos transtornos na esfera doméstica.” Além disso, “empresas pequenas e médias – o motor da economia global – sofrem brutalmente e muitas não se recuperarão”. São repercussões globais, mas mais agressivas nos países em desenvolvimento.

Se por um lado a aceleração da digitalização e do trabalho remoto prenuncia um futuro promissor com mais flexibilidade e sustentabilidade, por outro crescem as ansiedades quanto aos riscos da 4.ª Revolução Industrial, em especial os da automação. Nesse cenário, “há o risco massivo de que o desemprego e a perda de renda pela covid-19 deteriorem a coesão social e desestabilizem os países social, política e economicamente”.

A pandemia, por definição, afeta todos e, logo, todos nas esferas pública e privada devem buscar estratégias de curto, médio e longo prazos, que deem suporte aos mais vulneráveis; abordem de maneira abrangente o retorno ao trabalho; e criem empregos decentes e produtivos para uma economia verde, inclusiva e resiliente.

Como aponta o Fórum Econômico Mundial no estudo Diversidade, Equidade e Inclusão 4.0, esses três elementos são um imperativo moral e legal. Dar a todos oportunidades iguais de trabalho equitativo é, numa palavra, a coisa certa a fazer, conforme a “regra de ouro” – “faça aos outros o que gostaria que fizessem a você”. Ademais, a OIT mobilizou uma rede de convenções legais para eliminar a discriminação em todos os aspectos do trabalho.

Mas trata-se ainda de um imperativo econômico. Quanto mais diversificados são os quadros de uma empresa, maior é a pluralidade de conhecimentos e habilidades; o repertório socioemocional para identificação e solução de problemas; e a margem de acesso a novos mercados. “Para colher as plenas vantagens competitivas da diversidade, equidade e inclusão, é necessário um esforço inicial de aprendizagem por parte de gestores, empregados e de toda organização – mas um amplo espectro de pesquisas documenta conclusivamente que, com o tempo, equipes diversificadas bem geridas têm um desempenho significativamente superior a equipes homogêneas.”

Em cifras, o Fórum estima um aumento de 25% a 36% na lucratividade; de 20% nas taxas de inovação; e de 30% na habilidade de identificar e reduzir riscos nos negócios, além de uma relação causal estatisticamente significativa no engajamento e retenção de todos os empregados. O Fórum aponta três áreas de ação: fontes e seleção de talentos; análise e monitoramento organizacional; e experiência, recompensa e desenvolvimento dos empregados. São áreas que podem ser imensamente impulsionadas por novas tecnologias de triagem de dados e Inteligência Artificial.

Em outras palavras, o investimento em diversidade, igualdade e equidade gera não apenas empresas mais eficientes e lucrativas, mas uma sociedade mais justa e próspera. Se isso já era um anseio antes da pandemia, com ela se tornou uma urgência.

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