Projeções oficiais menos fantasiosas

Equipe econômica constrói cenários mais parecidos com os do mercado, mas presidente joga contra a seriedade fiscal

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2021 | 03h00

Mais inflação e menos crescimento marcam as novas projeções do Ministério da Economia, mais próximas do dia a dia de empresários e consumidores. Num aparente surto de realismo, técnicos do Ministério reduziram de 5,3% para 5,1% a expansão econômica estimada para este ano, e de 2,5% para 2,1% o avanço provável em 2022. Pelas novas contas, a inflação deve atingir 9,7% em 2021 e 4,7% no próximo ano. Antes se apostava em 7,9% e 3,75%. As expectativas continuam mais otimistas que as do mercado, onde os cálculos do Produto Interno Bruto (PIB) indicam aumento de 4,88% neste ano e de 0,93% no seguinte.

Investimento em alta, recuperação dos serviços e retomada do emprego devem favorecer o crescimento do PIB nestes dois anos, segundo a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia. Também se aponta, como fator favorável, “o bom carregamento estatístico de 2020”. Tradução: a melhora acumulada no ano passado criou um ponto de partida elevado para a atividade em 2021. Os números confirmam esse dado, mas também apontam um desempenho medíocre a partir daí.

No primeiro trimestre o PIB foi 1,2% maior que nos três meses finais do ano passado. No segundo houve um ligeiro recuo e mais uma perda pode ter ocorrido no terceiro, segundo o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), publicado na última terça-feira. Indústria, serviços e varejo recuaram em setembro. A produção industrial e o comércio varejista já vinham alternando resultados positivos e negativos, ao longo de 2020, e o setor de serviços também parece – é algo a ser verificado – ter perdido vigor, diante de um mercado muito enfraquecido pelas dificuldades dos consumidores.

Alguma reanimação pode surgir, nas próximas semanas, com o 13.º salário e o início do pagamento do Auxílio Brasil, sucessor do programa Bolsa Família, mas no começo do ano poderá haver 20 milhões de pessoas – e respectivas famílias – sem ajuda oficial e com muita dificuldade para sobreviver.

O trabalho informal, precário e muito mal pago, tem sido um importante meio de sustento para esses brasileiros, mas é difícil dizer como estará esse tipo de atividade no início de 2022. Não há indício, por enquanto, de melhoras significativas no mercado de trabalho nem sinais de uma forte retomada do investimento produtivo. O investimento em máquinas, equipamentos e obras tem-se mantido, segundo as estimativas, próximo de 18% do PIB, como em vários anos, mas agora se trata de 18% de um PIB emperrado.

O discurso oficial também continua alardeando a melhora das contas públicas e um compromisso com a seriedade fiscal. Mas essa melhora é em boa parte atribuível à inflação e, além disso, é difícil falar em seriedade quando o presidente da República insiste em gastos eleitoreiros e em troca de benefícios por apoio. Sua recente fala sobre possível aumento salarial ao funcionalismo surgiu como parte desse jogo. Não há dinheiro, advertiu o pessoal da área econômica. Só o presidente parecia desconhecer esse fato. Logo o presidente? 

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