Prudência

Queda dos números de casos e mortes por covid-19 não é senha para flexibilização total

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2021 | 03h00

Ainda morrem no Brasil, em média, cerca de 1.100 pessoas por dia em decorrência da covid-19. Diariamente, são registrados perto de 47 mil novos casos da doença. São números apavorantes, que a Nação não pode simplesmente tratar como se este fosse o curso natural da peste, um fato da natureza contra o qual nada há de ser feito ou, pior, um patamar aceitável de vidas perdidas.

A estatística atual pode até parecer tranquilizadora para muitos, haja vista que até poucos meses atrás os brasileiros conviviam com registros diários de casos e mortes duas ou três vezes piores. Seja como for, a despeito do esgotamento da sociedade e do justo anseio pelo fim das restrições, o Brasil ainda está de joelhos diante de um vírus que já matou 554 mil de seus cidadãos e continuará matando enquanto houver oportunidade para se disseminar.

O avanço da vacinação tem limitado o espaço de circulação do patógeno e contribuído para a redução do número de casos graves de covid-19 e de mortes. A pressão sobre os sistemas de saúde das redes pública e privada tem arrefecido. Em São Paulo, por exemplo, a taxa de ocupação de leitos de UTI para covid-19 está em 53%, a menor de 2021 registrada no Estado. As internações também caíram 62,7% e os óbitos tiveram queda de 57% em relação ao pico da segunda onda da pandemia, de acordo com o secretário estadual de Saúde, Jean Gorinchteyn.

Diante deste quadro, o governador João Doria (PSDB) decidiu levantar praticamente todas as restrições sanitárias em São Paulo a partir do dia 17 de agosto. Apenas eventos que provoquem grandes aglomerações – como shows, festas em casas noturnas e competições esportivas com público – seguirão proibidos até que sejam analisados os dados dos chamados “eventos-teste”. Todas as demais atividades comerciais, culturais e religiosas não terão qualquer tipo de restrição. De acordo com o plano do Palácio dos Bandeirantes, São Paulo voltará ao que era antes da pandemia em meados de agosto.

Antes da liberação plena haverá um período de transição, batizado como “Retomada Segura”. A operação de flexibilização no Estado terá início no dia 1o de setembro e irá até o dia 16. Nesta fase, o horário de fechamento dos estabelecimentos comerciais passará de 23 horas para zero hora e a ocupação permitida subirá dos atuais 60% para 80% da capacidade total, “desde que tenhamos a garantia do distanciamento de um metro entre os frequentadores dos espaços”, disse Patrícia Ellen, secretária estadual de Desenvolvimento Econômico.

Com menos pressão sobre os hospitais, é razoável que haja alguma flexibilização das medidas de segurança sanitária. Epidemiologistas alertam, no entanto, que o País ainda não está em condições de liberar totalmente a circulação de pessoas. Isto vale para São Paulo. Em que pesem os registros de estabilidade ou queda nos indicadores de casos e mortes, os patamares ainda são muito elevados. Além disso, alertam os especialistas, a circulação da variante Delta do coronavírus impõe doses extras de cautela. Países muito mais avançados na vacinação do que o Brasil, como é o caso dos Estados Unidos, tiveram de voltar atrás na flexibilização das medidas sanitárias justamente por causa dos perigos desta variante.

O Estado de São Paulo já vacinou 75% de sua população adulta com a 1.ª dose da vacina. Sabe-se que para a imunização completa são necessárias as duas doses, ou uma vacina de dose única, caso do imunizante da Janssen. Ainda está longe de ser atingido um porcentual seguro de pessoas completamente imunizadas, sobretudo diante das constantes falhas na distribuição de vacinas aos Estados e municípios pelo Ministério da Saúde.

Mas o governador João Doria conta com a assessoria do Comitê de Contingência contra a Covid-19, colegiado composto por alguns dos mais capacitados médicos do País. Espera-se que o governo paulista saiba onde está pisando ao antecipar a liberação das atividades no Estado para meados do mês que vem. Não há margem de tolerância para erros quando é a vida dos cidadãos que corre risco.

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