Quem são os 'nem-nem'

Jovens que não trabalham nem estudam, eles não estão ociosos por opção, mas sim por despreparo

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2018 | 03h00

A expressão “nem-nem” serve para classificar jovens que não trabalham nem estudam. Resultante das significativas mudanças no mercado de trabalho operadas nos últimos anos, esse contingente representa a parcela da população que expressa apatia justamente no momento em que deveria estar fazendo planos para o futuro. Num primeiro momento, associou-se esse comportamento a um certo desencanto da juventude de classe média com a educação formal, que seria inútil para melhorar suas possibilidades de encontrar o trabalho que combinasse seus ideais de vida com boa remuneração. A opção pelo ócio seria então uma resposta deliberada para essa perspectiva desanimadora. Mas uma pesquisa recente mostrou que no Brasil, bem como na América Latina em geral, a maioria absoluta dos “nem-nem” não está ociosa por opção, mas sim por despreparo, o que torna o problema muito mais complexo.

Estudo coordenado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), e que no Brasil foi realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entrevistou 15 mil jovens entre 15 e 24 anos - que os pesquisadores chamaram de “millennials” - em nove países da América Latina e do Caribe. A ideia era ir além dos tradicionais levantamentos do gênero, que se limitavam a observar a renda e o nível educacional dos investigados, e procurar conhecer variáveis como a informação dos jovens a respeito do mercado de trabalho, além de suas habilidades cognitivas e socioemocionais. Com isso, emerge um quadro bem menos simplista a respeito do fenômeno dos “nem-nem”, ajudando a reduzir preconceitos sobre esses 20 milhões de jovens latino-americanos.

O estudo mostrou que 21% dos jovens pesquisados no continente não estudam nem trabalham. No Brasil, esse número chega a 23%, inferior somente a El Salvador (24%) e muito distante do Chile (14%), o país com menor índice. O levantamento constatou, contudo, que grande parte desses jovens não está ociosa. No Brasil, 36% deles estão procurando trabalho, 44% se dedicam a cuidados familiares e 79% desempenham tarefas domésticas. Apenas 12% não fazem nada disso. Ou seja, os jovens “nem-nem” desempenham atividades importantes para a economia familiar e não deixam de procurar emprego no mercado de trabalho, ainda que lhes seja muito difícil encontrar vagas, já que sua educação é falha.

Ademais, a pesquisa, em seu aspecto qualitativo, mostrou que os “nem-nem” são o grupo social que expressou maior preocupação com a violência urbana, além de identificar o tráfico de drogas como uma tentação para afastá-lo do caminho do trabalho e da educação, já que oferece a chance de obter dinheiro fácil. “Nesse sentido, ser ‘nem-nem’ também pode ser entendido como uma tentativa de evitar os riscos das ruas”, observou o relatório. Assim, a probabilidade de ser “nem-nem” é maior nas famílias de baixa renda.

A pesquisa mostra também que, a despeito dos avanços na área educacional, a qualidade do ensino oferecido aos jovens está longe do que vem sendo exigido no novo mercado de trabalho, que premia habilidades que se adaptem a diferentes circunstâncias, e não a rígida especialização profissional que caracteriza a maioria das carreiras tradicionais.

Além disso, está claro que os jovens latino-americanos ficam muito pouco tempo na escola. No Brasil, a média é de menos de 10 anos completos de estudo, ante mais de 11 anos no Chile e na Colômbia. E mesmo os que passam mais tempo na escola demonstram graves deficiências na resolução de problemas simples. E os empregos disponíveis para essa faixa da população são precários, com escasso incentivo para um maior engajamento.

Sem ter a perspectiva de retorno profissional do esforço educacional, os jovens acabam empurrados para fora da escola e do mercado de trabalho. Mesmo assim, a pesquisa constatou que 77% dos jovens brasileiros esperam alcançar o ensino superior e 83% acreditam ser capazes de conseguir o trabalho que desejam. É nesse otimismo que o poder público precisa apostar.

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