Questão ambiental requer realismo

Políticas climáticas custam caro, mas controlar a temperatura global é urgente. Por isso é preciso maisprudência, não menos – e menos alarmismo, não mais

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2022 | 03h00

O Painel de Mudanças Climáticas da ONU divulgou a terceira parte de sua avaliação do estado da questão. Comparada à de oito anos atrás, a primeira parte do relatório, sobre a física das mudanças, e a segunda, sobre suas consequências, trouxeram notícias sombrias: o clima está mudando mais rápido do que se antecipava e os efeitos são piores do que se supunha. A terceira parte é sobre ações.

Na era industrial, a temperatura global subiu 1,1°C. A ONU estima que, se as emissões de carbono forem zeradas até 2050, há 50% de chance de mantê-la em 1,5°C – meta do Acordo de Paris. Se forem zeradas até 2070, há 50% de chance de mantê-la em 2°C.

São metas improváveis. As emissões precisariam atingir o seu pico até 2025 e cair 43% até 2030. Até 2050, o consumo de carvão precisaria cair 95%; petróleo, 60%; e gás, 45%.

Há notícias positivas. O crescimento das emissões continua, mas na última década a média anual desacelerou de 2,1% para 1,3%. Os preços de energias verdes despencaram: solar e bateria de lítio caíram 85%; eólica, 55%.

O impacto da guerra sobre os combustíveis é um apelo à aceleração da transição energética, mas também um alerta de que ela exige prudência.

Quando a ciência climática começou a tomar corpo, há cinco décadas, tinha três desafios: compreender as mudanças e seus impactos; vencer a inércia e o negacionismo; e descobrir soluções.

Foi bem-sucedida. Hoje é incontroverso que há impactos climáticos graves causados pelo ser humano e é preciso substituir fontes fósseis por renováveis, construir cidades mais verdes e salvar mais florestas. Os meios são cada vez mais consensuais: taxação crescente sobre o carbono, pesquisa e inovação e adaptação.

Mas, se a inação ante as mudanças climáticas tem custos, as políticas climáticas também têm. Segundo a ONU, manter a temperatura abaixo de 2°C custaria, em 2050, de 1,3% a 2,7% do PIB ao ano. Há estudos que calculam 3,3%. Uma estimativa oficial da Nova Zelândia estimou que zerar as emissões em 2050 consumiria 16% do seu PIB.

O desafio é encontrar uma solução que concilie custos sociais e benefícios ambientais – e vice-versa –, ou seja, o máximo de redução da temperatura com um mínimo de danos sociais ou, de outro modo, o máximo de prosperidade com um mínimo de danos ambientais.

Paradoxalmente, a ameaça mais alarmante a esse desafio é o alarmismo. Com base na premissa de que as mudanças climáticas são uma ameaça existencial iminente, ele projeta visões apocalípticas de milhões e milhões de pessoas dizimadas por catástrofes naturais, miséria e fome. Mas nos últimos cem anos, mesmo com os impactos climáticos e o crescimento populacional, a melhoria na qualidade de vida reduziu as mortes por catástrofes em mais de 90%. A ONU calcula que, se absolutamente nada for feito para reduzir a temperatura, em 2100 o custo anual para o mundo ficaria entre 2,6% e 4% do PIB. Grave, mas não o fim do mundo.

Pessoas bem-intencionadas creem que, para salvar o meio ambiente, precisam multiplicar hipérboles catastróficas. Mas isso é perigoso e contraproducente. Perigoso porque desvia a atenção de outras ameaças globais. Pouco antes de Vladimir Putin lançar sua guerra de destruição na Ucrânia e ameaçar o mundo com bombas nucleares, o Fórum Econômico Mundial declarava que “o fracasso nas ações climáticas” é o maior risco mundial da década. Um foco exasperado nas políticas climáticas e metas irrealistas podem drenar recursos vitais de outras áreas, levando a mais pobreza e violência e menos saúde e educação. Os gastos globais com políticas climáticas chegam a mais de meio trilhão de dólares e seguem crescendo, enquanto os investimentos dos países da OCDE em inovação em saúde, defesa, agricultura ou ciência declinam na proporção do PIB.

Por fim, o alarmismo é contraproducente para as próprias políticas climáticas, pelo mero fato humano de que o medo é mau conselheiro. Seria uma banalidade intolerável dizer que as soluções para as mudanças climáticas dependem de mais razão e menos emoção, se somente os debates globais não estivessem sobrecarregados pela pior das emoções: o pânico.

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