Rachadinha, de novo

Há mais de três anos Bolsonaro e seus filhos não dão uma explicação convincente sobre as ‘rachadinhas’

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2022 | 03h00

O Estado revelou o esquema das “rachadinhas” envolvendo a família de Jair Bolsonaro há mais de três anos. De lá para cá, tanto o presidente da República como seus filhos parlamentares, principalmente o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), maior implicado no escândalo até o momento, têm feito de tudo para manter esse esqueleto muito bem guardado no armário.

As vitórias que o senador obteve na Justiça até o momento estão circunscritas à esfera processual. Ainda não foi dada à sociedade uma explicação minimamente convincente para a grave suspeita que paira sobre a ala política da família presidencial, a de se apropriar indevidamente da maior parte dos salários de assessores parlamentares que trabalharam para o clã.

A defesa de mérito da acusação é pífia, um simulacro que chega a ofender a inteligência dos cidadãos. Bolsonaro e seus filhos se limitam a negar a prática da “rachadinha”, uma das modalidades do crime de peculato descrito no art. 312 do Código Penal. Quando muito, dizem ser alvos de um “ataque político”, o que quer dizer rigorosamente nada.

É curiosa essa negação. Em depoimentos prestados às autoridades do Rio, os funcionários dos gabinetes de Bolsonaro e de seus filhos que tiveram de transferir quase a totalidade de seus vencimentos para os acusados de “administrar” o esquema – o ex-policial militar Fabrício Queiroz e Ana Cristina Valle, ex-mulher do presidente Bolsonaro – afirmam que as “rachadinhas” existiram, que mal viam a cor do dinheiro. Já os que receberam os créditos suspeitos ao longo de anos negam qualquer irregularidade. Como milhões de reais foram parar em suas contas, bancando um estilo de vida muito além do que seria compatível com a renda de um parlamentar, nem um pio.

Mas, além dos assessores, pessoas muito próximas ao presidente Bolsonaro também já declararam a existência do esquema. O último a dar com a língua nos dentes foi Waldyr Ferraz, vulgo “Jacaré”, amigo de Bolsonaro há mais de 30 anos. O tal “Jacaré” é tão íntimo do presidente da República que fica sabendo de suas viagens ao Rio antes mesmo da agenda oficial de Bolsonaro ser divulgada. Revelando que não é um sujeito qualquer, “Jacaré” apareceu ao lado do presidente e do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello em um carro de som após uma das chamadas motociatas de Bolsonaro no Estado.

Em entrevista à revista Veja, “Jacaré” afirmou que Bolsonaro sabia e participou do esquema. “Ele fez (a ‘rachadinha’) nos três gabinetes (o do próprio Bolsonaro, na Câmara dos Deputados, o de Flávio, na Assembleia Legislativa do Rio, e o de Carlos Bolsonaro, na Câmara dos Vereadores do Rio). O Bolsonaro deixou tudo na mão dela (Ana Cristina Valle) para ela resolver. Mas quem assinava era ele. Vai dizer que não sabe? É ‘batom na cueca’”, disse “Jacaré” à revista, no linguajar compatível com a ruína ética e moral a que Bolsonaro submeteu o País.

Há muito a ser explicado por Bolsonaro. Investigações de casos bem mais complexos do que as “rachadinhas” já levaram à cadeia empresários e figurões da República tidos como intocáveis, deixando claro que ninguém está acima das leis. Mas, para que isso aconteça, é preciso haver coragem, espírito público e diligência daqueles que, por dever legal, devem agir. 

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