Reação forte, mas incompleta

Apesar da reação, País ficou em novembro abaixo do nível pré-crise, segundo o BC.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 03h00

O Brasil acumulou crescimento de 15,3% nos sete meses até novembro e deixou longe o fundo do poço, mas a produção continuou 1,9% abaixo do nível de fevereiro, anterior ao primeiro impacto da covid-19, segundo o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br). As marcas da pandemia ainda são muito visíveis na economia nacional. Em novembro a indústria superou por 2,6% o patamar de antes da crise, mas o resultado de 11 meses foi 5,5% inferior ao do período equivalente do ano anterior. A agropecuária se manteve firme ao longo de 2020, enquanto o setor de serviços, com recuperação iniciada só em junho, permanece muito fraco. Todos esses dados estão refletidos no IBC-Br, impreciso como prévia do Produto Interno Bruto (PIB), mas valorizado como útil sinalizador de tendências.

Como a produção industrial e o consumo, o indicador do BC tem avançado, nos últimos meses, menos rapidamente que no início da recuperação. O crescimento mensal passou de 1,76% em setembro para 0,75% em outubro e 0,59% em novembro, na série livre das variações sazonais. Essa perda de impulso está associada à insegurança e às dificuldades do consumidor, a partir da redução do auxílio emergencial, em setembro. O consumo, principal motor da economia, tem oscilado em ritmo inferior ao do começo da retomada, como indicam os dados do varejo. Há quem antecipe, no mercado, um IBC-Br com variação negativa em dezembro.

Os números são todos negativos nas comparações com prazos mais longos. O indicador de novembro foi 0,83% menor que o de um ano antes. O resultado trimestral foi 1,61% menor que o dos meses correspondentes de 2019. O confronto de janeiro-novembro de 2020 com os mesmos 11 meses do ano anterior mostra um recuo de 4,63%. O desempenho acumulado em 12 meses ficou 4,15% abaixo do contabilizado no período precedente. Esses últimos números negativos são próximos da perda econômica estimada no mercado para 2020. Pela mediana das estimativas, o PIB encolheu 4,37% no ano passado. Esse número apareceu na pesquisa Focus divulgada no dia 11 pelo BC.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, tem descrito a reação da economia como uma recuperação em V. O crescimento acumulado de maio a novembro parece justificar essa descrição, embora o resultado geral de 2020, pelos cálculos do mercado e do próprio governo, seja uma queda superior a 4%. Além disso, o retorno ao nível de 2019 só ocorrerá em 2022, segundo as projeções correntes. Segundo o boletim Focus publicado nesta segunda-feira, o PIB crescerá 3,45% neste ano, de acordo com a projeção do mercado. Confirmada essa expectativa, continuará faltando um pedaço da fatia perdida no ano passado. 

Mas o avanço econômico de 3,45% dependerá de condições pressupostas pelos economistas do mercado. Essas condições incluem seriedade na gestão das contas públicas ou, em outras palavras, clara manutenção do compromisso com a responsabilidade fiscal.

Segundo o boletim Focus, o déficit primário do setor público (saldo calculado sem o custo dos juros) diminuirá dos 10,60% do PIB estimados para 2020 para 2,80% em 2021. A melhora resultará em parte do aumento da arrecadação, mas o resultado dependerá principalmente do firme controle dos gastos. O governo terá de se abster de qualquer gastança destinada a favorecer a reeleição do presidente Jair Bolsonaro ou a beneficiar seus aliados.

Além disso, há insegurança quanto às fontes de crescimento. Sem auxílio emergencial, de onde sairá o dinheiro para sustentar o consumo? Bastará antecipar – hipótese mais nova – o 13.º salário dos aposentados e o abono salarial? As famílias estarão dispostas a gastar a propalada poupança da quarentena? Faltam respostas a essas questões. Se o governo afrouxar a política, sob pressão de aliados e de ministros gastadores, a confiança sumirá, o dólar poderá disparar, de novo, e os juros tenderão a subir, prejudicando o Tesouro e a reativação. A notícia econômica mais promissora, por enquanto, é o começo da vacinação – também na contramão da política presidencial.

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