Recessão nos EUA, um risco a mais

Governo brasileiro, hoje dedicado integralmente à reeleição do presidente, deveria estar mais atento ao perigo de retração na maior economia do mundo, grande parceira comercial do País

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2022 | 03h00

Já em crise e assolado pelas incertezas de um ano eleitoral, o Brasil se defronta agora com o perigo de recessão na maior potência econômica do mundo, segundo maior mercado importador de produtos brasileiros e principal destino de suas exportações industriais. O Banco Central (BC) aumentou de 1% para 1,7% o crescimento estimado para o País neste ano. Embora justifique algum otimismo, essa revisão ainda aponta um dinamismo bem menor que o de outros emergentes e um desempenho inferior àquele esperado para a economia global, um avanço em torno de 3%.

O risco de recessão nos Estados Unidos, nos próximos quatro trimestres, é superior a 50%, segundo estudo apresentado por Michael Kiley, economista sênior do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Quando a projeção se estende pelos próximos dois anos, a probabilidade sobe para dois terços. Se essa retração ocorrer, seus efeitos poderão ter importante impacto internacional. Esse alerta deveria ser, para o presidente Jair Bolsonaro e sua equipe, mais um forte motivo para cuidar da segurança econômica do País e perder menos tempo tentando intervir na administração da Petrobras.

Retração econômica e maior desemprego poderão compor, nos Estados Unidos, o capítulo seguinte à maior inflação em 40 anos. Os preços ao consumidor subiram 8,6% nos 12 meses até maio, no mercado americano. O último resultado pior que esse, 8,9%, foi registrado no período até dezembro de 1981. Para tentar conter a onda inflacionária, o Fed passou a elevar os juros básicos e a reverter a política de expansão da moeda. As ações expansionistas haviam sido usadas para ajudar o País a recuperar-se do tombo sofrido em 2020, na primeira fase da pandemia de covid-19.

A recuperação foi um sucesso. Em 2021, o Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos foi 5,7% maior que o do ano anterior, quando havia diminuído 3,4%. Mas, depois desse forte crescimento, a economia americana começou a perder impulso e no primeiro trimestre deste ano encolheu, em termos anualizados, 1,5%. Recentes projeções ainda apontaram expansão superior a 3% neste ano e a 2% no próximo, mas o aperto crescente da política monetária tende a baixar as expectativas.

A invasão da Ucrânia pelas tropas de Vladimir Putin já havia alterado consideravelmente as previsões para as grandes potências e, naturalmente, para a economia mundial. Divulgado no começo de junho, o Panorama Econômico da OCDE, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, trouxe uma importante revisão dos números. O crescimento esperado da economia global foi reduzido de 4,5%, estimativa de dezembro, para 3%. A expansão prevista para os Estados Unidos passou de 3,73% para 2,46%.

No caso do Brasil, o aumento do PIB em 2022 foi recalculado de 1,4% para 0,6%, com recuperação para 1,2% em 2023. A expectativa em relação à economia brasileira é inferior a previsões do BC e de outras fontes públicas e privadas, mas dificilmente uma revisão das estimativas, nos próximos meses, mudará algumas constatações importantes para qualquer debate: o País está crescendo bem abaixo da média mundial, continua correndo bem atrás de outros emergentes, carrega desajustes importantes e tem baixo potencial para se expandir economicamente nos próximos anos.

Não por acaso as projeções de crescimento no médio e no longo prazos mal chegam a atingir 2% ao ano. O investimento em recursos produtivos tem sido, há muitos anos, insuficiente para dar ao País um potencial de expansão semelhante ao de outras economias emergentes ou ainda classificadas como “em desenvolvimento”. Além disso, a inflação brasileira continua acima dos níveis observados na maior parte do mundo capitalista e, como complemento, há muita insegurança quanto à evolução das contas públicas. Por todas essas deficiências, qualquer risco de contágio por uma nova recessão em grandes economias é especialmente inquietante, exceto, é claro, para pessoas, como o presidente brasileiro, mais dedicadas a buscar fórmulas populistas de sobrevivência política.

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