Reconstrução

Só a união em prol de um bem maior poderá ser capaz de libertar o País da prisão ideológica

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2020 | 03h00

A Comissão Executiva Nacional do PT, autointitulado “o mais importante partido de oposição” do País, divulgou nota para informar que deu início à elaboração de um projeto de retomada econômica, geração de empregos e reconstrução do Estado e da soberania nacional. Nada menos ambicioso do que isto. Chamado Plano Lula para o Brasil, o trabalho será coordenado não por Lula da Silva, como se poderia supor, mas pelo “poste” Fernando Haddad, candidato derrotado do partido na eleição presidencial de 2018.

Talvez a direção nacional do PT ainda esteja atordoada pela expressiva perda de apoio popular ao partido em decorrência da descoberta de uma miríade de crimes cometidos por seus próceres, pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e pela prisão do demiurgo de Garanhuns. O fato é que o PT não compreendeu até hoje que é parte do problema, e não da solução para a miséria política e econômica em que o País se encontra. Só a megalomania e o sebastianismo são capazes de explicar tamanho embuste como um Plano Lula para o Brasil.

Se Lula da Silva tem genuíno interesse em oferecer algo de bom para o País a esta altura da vida, o melhor que pode fazer é se afastar da vida pública e se dedicar aos cuidados da família e de sua defesa nas muitas ações penais a que ainda responde na Justiça. Só assim poderá arejar os quadros e as propostas do PT, permitir a ascensão de novas lideranças políticas e, não menos importante, deixar de interditar qualquer tentativa de entendimento entre os partidos de oposição, de variados espectros político-ideológicos, pela sombra de seu ego gigantesco.

A história política recente indica que a eleição de alguém flagrantemente inabilitado para o exercício da Presidência da República como Jair Bolsonaro – cuja incompetência ficou ainda mais cristalina após a eclosão da pandemia de covid-19 – pode ser explicada, em boa medida, pela ausência de respostas satisfatórias dos partidos e de expoentes da boa política aos anseios da sociedade manifestados a partir de junho de 2013. A rigor, Bolsonaro jamais encarnou a solução para as angústias nacionais. Ao contrário: a ascensão de um aventureiro populista ao mais elevado cargo do Poder Executivo resulta da deslegitimização da política como o único meio apto a dar conta das grandes questões nacionais num regime democrático. Os anos de desmandos do PT no governo federal têm enorme parcela de responsabilidade por este estado de coisas.

Naquele mês marcante, milhões de brasileiros foram às ruas mostrar insatisfação com a corrupção que grassa no País, com a má utilização de recursos públicos, com o descaso dos políticos em relação às necessidades prementes dos mais pobres, com o achincalhe dos valores republicanos mais comezinhos e com o alheamento da chamada classe política da realidade brasileira. Em suma, o que se ouviu das ruas, em alto e bom som, foi um pedido de socorro à democracia representativa no Brasil. Nada foi feito para aplacá-lo nestes quase sete anos. Se nada for feito nos próximos dois anos, ou seja, se os partidos e as vozes responsáveis da boa política não encontrarem formas de reaproximação com a sociedade, ouvindo, interpretando e respondendo a contento as suas demandas, o País corre o sério risco de ser lançado em uma nova aventura inconsequente em 2022, seja com Jair Bolsonaro, seja com outro oportunista de ocasião.

A extrema polarização política, não é novidade, só interessa aos irresponsáveis que figuram nos dois polos opostos. Jair Bolsonaro e Lula da Silva – ou quem quer que seja seu preposto – alimentam-se mutuamente da enorme rejeição que parcelas expressivas de cidadãos sentem por um e por outro. Somente a união de lideranças políticas em prol de um bem maior, desprovidas de vaidade por seus interesses estanques, poderá ser capaz de libertar o País da prisão ideológica e, enfim, guiar a Nação no caminho da retomada do crescimento econômico, do desenvolvimento humano e do resgate da confiança dos cidadãos nas regras do jogo democrático. Não há outro caminho para o País. A alternativa é o desastre.

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