Recuo do investimento direto

O tipo mais seguro e mais desejável de investimento estrangeiro tem declinado seguidamente desde 2019

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2022 | 03h00

Com reforço de caixa de US$ 46,44 bilhões de investimento direto, o Brasil teve dinheiro mais que suficiente, em 2021, para cobrir o buraco das contas externas, um déficit de US$ 28,11 bilhões nas transações correntes com o exterior. Dinheiro de sobra tem sido o resultado mais comum, nos últimos 20 anos, no fechamento das contas com os demais países. O País tem acumulado superávits no comércio de mercadorias, graças, principalmente, ao agronegócio e ao setor mineral. Mas os saldos têm sido negativos na conta de serviços, onde se incluem fretes, seguros e viagens, e na de rendas, onde aparecem remessas de lucros e de royalties.

A soma das três contas compõe as transações correntes, com saldo geralmente em vermelho, mas sempre financiável, sem dificuldade, com investimento direto. Embora continue mais que suficiente para cobrir os déficits, esse dinheiro vem diminuindo há alguns anos. O Brasil tem ficado menos atraente para o investidor de longo prazo – uma tendência bem visível a partir de 2019, o primeiro ano do atual mandato presidencial.

Chegou a US$ 78,16 bilhões, em 2018, o ingresso líquido – entradas menos saídas – de investimento direto estrangeiro. Foi o segundo maior resultado anual, superado apenas pelo de 2014, quando entraram, sob essa rubrica, US$ 87,71 bilhões. O resultado final de 2020, US$ 37,70 bilhões, é facilmente explicável como efeito da pandemia. Em todo o mundo, as operações produtivas, comerciais e financeiras foram afetadas pela covid-19.

Excetuado o desastre econômico e financeiro de 2020, o investimento direto recebido em 2021 foi menor que todos aqueles contabilizados a partir de 2010, quando o valor atingiu US$ 48,51 bilhões. Em 2009 haviam entrado US$ 25,95 bilhões, valor bem menor que o do ano anterior, US$ 45,06 bilhões. Mas o mundo enfrentou no biênio 2008-2009 a primeira grande crise financeira deste século, com muitas quebras na maior parte do mundo capitalista. No Brasil os efeitos dessa crise internacional foram atenuados por medidas monetárias e fiscais extraordinárias e, em grande parte, pelas condições de instituições financeiras mais saudáveis e menos expostas que as de muitos outros países.

A recessão iniciada no fim de 2014 e superada a partir de 2017 foi um fenômeno brasileiro. Em 2013, o investimento direto, de US$ 75,21 bilhões, foi insuficiente para cobrir o déficit em transações correntes, de US$ 79,99 bilhões. A insuficiência foi maior no ano seguinte, quando entraram US$ 87,71 bilhões e o buraco chegou a US$ 101,68 bilhões. A insuficiência nunca voltou a ocorrer nos anos seguintes, mas os valores oscilaram, e diminuíram seguidamente, a partir de 2019. Pode haver nesse declínio um sinal de alarme, mas a administração federal nunca mostrou preocupação. O investimento direto é especialmente desejável, porque se incorpora no capital produtivo e é muito menos instável que o investimento de caráter essencialmente financeiro. Para atraí-lo, no entanto, o País precisa oferecer boas perspectivas de expansão e segurança.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.