Redes de mentiras

Em pelo menos 26 regimes autoritários, as tropas virtuais se tornaram uma ferramenta permanente para suprimir direitos e desacreditar dissidentes e jornalistas

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2019 | 03h00

A radicalização da política, a desconfiança da democracia e a degradação do debate público são fenômenos muito anteriores às mídias sociais ou mesmo à internet. As redes digitais, por sinal, podem ser um espaço poderoso de revitalização da democracia. Mas com demasiada frequência elas amplificam a desinformação e o ódio. Mais grave é quando essa amplificação não é meramente difusa e espontânea, mas deliberada, e, pior, não é promovida apenas por parte de facções da sociedade, mas por políticos, partidos e mesmo governos. Para mensurar este fenômeno, o Instituto de Internet da Universidade de Oxford iniciou há três anos um inventário anual sobre Desinformação Global.

Os dados deste ano mostram uma inequívoca escalada das “tropas virtuais” (cyber troops), definidas como “agentes do governo ou de partidos políticos incumbidos de manipular a opinião pública na rede”. As evidências apontam esse tipo de manipulação em 70 países. Em 2018 foram 48 e em 2017, 28 – ou seja, em dois anos a quantidade de países afetados cresceu 150%. Em pelo menos 26 regimes autoritários, as tropas virtuais se tornaram uma ferramenta permanente para suprimir direitos e desacreditar dissidentes e jornalistas.

Além disso, alguns governos têm se empenhado em utilizar estas tecnologias como ferramenta de influência e poder geopolíticos. É o caso da Índia, Irã, Paquistão, Rússia, Arábia Saudita, Venezuela e especialmente a China. Até recentemente o Partido Comunista chinês raramente utilizava as mídias sociais para manipular a opinião pública em outros países, mas, desde os protestos pró-democracia em Hong Kong, ele tem “flexionado seus músculos de desinformação”, na expressão dos pesquisadores.

O Facebook permanece a plataforma dominante para a atuação das tropas virtuais, como se viu em 56 países, mas o WhatsApp cresce rapidamente em importância. Os pesquisadores indicam quatro tipos prevalentes de usuários fraudulentos: humanos, utilizados em 60 países para publicar comentários e enviar mensagens privadas; bots (algoritmos programados para mimetizar humanos), utilizados em 50 países para amplificar narrativas e sufocar vozes dissidentes; ciborgues (autômatos coordenados por humanos); e contas roubadas.

As tropas virtuais utilizam vários formatos de mensagens. As mais comuns são as campanhas de difamação contra a oposição, verificadas em 89% dos países. Em seguida, vêm as campanhas de manipulação pró-governo ou partido (71% de incidência) e as mensagens projetadas para provocar divisão e polarização (34%). Além disso, as tropas podem extraviar debates ou críticas sobre assuntos importantes e eventualmente suprimir participações em eventos, com ataques pessoais e intimidação em massa. No Brasil, verificou-se a incidência de todas essas modalidades.

Há também estratégias variadas de comunicação com os usuários das redes. A criação de desinformação (memes, vídeos, etc.) ou manipulação de mídia (websites de fake news) para enganar é utilizada em 75% dos países. Há ainda a amplificação de conteúdos e mensagens por meio de mananciais de hashtags (73%) e as “trolagens”, estigmatizações ou intimidações, estratégia verificada em 68% dos países, mas que vem crescendo aceleradamente.

Seja como causa ou consequência desses fenômenos, o fato é que a indústria das campanhas de manipulação digital se expande a todo vapor, o que deveria atrair, com a mesma intensidade, a investigação por parte do meio acadêmico e jornalístico, além das agências de controle governamentais. Aliás, os sistemas de proteção precisam ser aperfeiçoados, já que todas estas técnicas são potencializadas com o desenvolvimento iminente de novas tecnologias, como a Inteligência Artificial, a Internet das Coisas ou a Realidade Virtual.

Como disse um dos fundadores da democracia moderna, James Madison: “Um governo do povo, sem informação para o povo, é só o prólogo para uma farsa ou uma tragédia; ou, talvez, ambas”.

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