Reféns do Taleban

O fiasco da retirada americana do Afeganistão deixou o mundo mais perigoso

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2021 | 03h00

Apesar dos apelos de seus aliados no G-7, o presidente norte-americano, Joe Biden, manteve o prazo de retirada das tropas no Afeganistão até o dia 31. Ele espera que todos os civis americanos sejam retirados e que logo a opinião pública esqueça as cenas caóticas no aeroporto de Cabul. Mas, como todas as expectativas americanas desde o anúncio da retirada, esta com toda a probabilidade será frustrada, com as consequências mais catastróficas.

Mesmo admitindo, contrariamente a muitos estrategistas, que a retirada era a melhor opção ante as pressões da opinião pública americana e de autoridades democratas e republicanas, não havia nenhum fato determinante para que ela fosse tão precipitada.

O acordo com o Taleban, costurado atabalhoadamente por Donald Trump com vistas às eleições e sem maiores consultas a seus aliados, falhou em garantir o que deveria ser precondição para qualquer saída: um cessar-fogo entre o governo afegão e o Taleban. Desde então, o Taleban descumpriu todas as suas promessas e, quanto mais os americanos se apressavam em retirar suas tropas, menos incentivos ele tinha para negociar. Em semanas, o governo colapsou, o Taleban tomou a maior parte do país e encurralou os aliados no aeroporto de Cabul.

Biden se recusou a assumir sua responsabilidade e muito menos a adaptar suas estratégias. A recusa dos jihadistas em respeitar sua parte no acordo lhe dava toda legitimidade para reverter a retirada e reagrupar as forças. Mas, ao contrário, ante o avanço surpreendente do Taleban, ele se aferrou intransigentemente a uma data arbitrária, estabelecida com vistas ao 9 de setembro.

Havia alternativas. Se os EUA não tivessem abandonado a sua base aérea em Bagram, hoje controlada pelo Taleban, eles poderiam usar forças aéreas para frear o avanço das milícias e não precisariam disputar o controle do aeroporto em Cabul. Biden poderia ter enviado forças para garantir zonas seguras para resgatar os civis americanos e seus aliados. Sobretudo, deveria, em concerto com a Otan, informar o Taleban de que a retirada não estava condicionada a um prazo, mas a um objetivo: retirar seus cidadãos e aliados do país.

Biden pretende alcançar esse objetivo ameaçando reter US$ 7 bilhões em reservas externas afegãs. O comunicado do G-7 fala que a condição “número um” para evitar sanções é a garantia de uma “passagem segura” a todos que quiserem deixar o país até o dia 31. Mas o poder de impor sanções internacionais aos líderes do Taleban resta com o Conselho de Segurança da ONU, que inclui Rússia e China, menos hostis ao Taleban e com interesses econômicos no país.

Neste momento, centenas de soldados americanos estão embarcando de volta ao seu país. Enquanto os EUA renunciam à sua última prerrogativa militar, o Taleban controla o perímetro do aeroporto. Há relatos de cidadãos americanos sendo barrados e mortos. Na melhor das hipóteses (considerada um “milagre” por muitos analistas), de que todos sejam evacuados no prazo, a sentença de morte para milhares de aliados afegãos e suas famílias está assinada: indiferente ao G-7, o Taleban proibiu qualquer afegão de deixar o país. Na pior das hipóteses, civis americanos e ocidentais podem ser mantidos como reféns para que o Taleban possa extorquir mais concessões. A Casa Branca admite que não sabe quantos americanos estão no país (fala-se em milhares) e que alguns podem ficar para trás.

Em ambas as hipóteses, a retirada já pode ser considerada um dos maiores fracassos militares e geopolíticos da história dos EUA. Nos cinco anos em que esteve no poder nos anos 90, o Taleban era um pária reconhecido por apenas três países. Hoje já se fala em 50, incluindo Rússia, China e Irã. O Taleban controla mais territórios, está mais bem equipado (inclusive com o arsenal americano tomado das forças afegãs), e seu “triunfo” sobre a superpotência ocidental excitará as ambições de jihadistas e outros adversários do país.

O fiasco da retirada americana deixou o mundo mais perigoso. Para os milhares de estrangeiros e afegãos à mercê do Taleban, este perigo é imediato e letal.

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