Renovação no Chile

Boric rejuvenesce a política pós-Pinochet, mas seu sucesso depende de moderação e conciliação

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2021 | 03h05

O primeiro turno das eleições no Chile terminou com o pior cenário possível: apatia do eleitorado e extremismo dos candidatos. Além de uma nova legislatura confusa e de um alto índice de abstenção, o ex-líder estudantil, Gabriel Boric, de 35 anos, foi o candidato mais à esquerda desde Salvador Allende, e José Antonio Kast, 55, o mais à direita desde o ditador Augusto Pinochet.

Já o segundo turno foi marcado por uma corrida ao centro. O comparecimento às urnas de 55% ficou oito pontos acima do primeiro turno e foi o maior em dez anos de voto voluntário.

O resultado marca o fim de um ciclo. O começo do fim foram os protestos de 2019 por mais justiça social, que levaram a uma Constituinte para substituir a Constituição legada por Pinochet. Os eleitores da Constituinte já haviam esvaziado o poder dos partidos de centro-direita e centro-esquerda que governaram o Chile desde 1990, conferindo mais peso à esquerda. A vitória de Boric com quase 56% dos votos consuma a transição. Será o presidente mais jovem da história do Chile e o primeiro esquerdista de fora da esquerda tradicional na redemocratização.

O maior desafio é socioeconômico. O Chile é o país mais próspero da América Latina, mas também um dos mais desiguais. Para manter a primeira condição e reverter a segunda, Boric precisará consolidar a moderação prometida no segundo turno e unificar o país.

Não será fácil. A Constituinte está ainda mais à esquerda e conta com muitos membros independentes. A Câmara está fragmentada: com 21 partidos e muitos independentes será difícil formar maiorias. No Senado há empate entre esquerda e direita.

A campanha de Boric foi inicialmente marcada pela radicalização de pautas progressistas, como aumento de impostos e gastos públicos, ou a extinção das aposentadorias privadas e dívidas estudantis. No segundo turno, como disse o sociólogo Aldo Mascareñas, ele “adotou parte do discurso de Kast sobre ‘ordem social’ e teve que mudar o conceito de ‘refundação’ para o de ‘reforma’, com uma orientação mais social-democrata”. Mas é incerto se, no governo, ele conterá o radicalismo de seus aliados comunistas e atrairá o apoio do empresariado, das Forças Armadas e partes da imprensa hostis ao seu programa.

Logo será possível ter uma ideia dos rumos do governo, com a escolha dos ministros. A equipe econômica será crucial para dissipar as desconfianças do mercado, que reagiu negativamente.

Desde já, o segundo turno foi uma vitória da democracia. Kast afastou qualquer acusação de fraude e imediatamente parabenizou o adversário. Boric foi conciliador. Ele agradeceu a todos os adversários, em especial Kast. “Espero que tenhamos maturidade de contar com suas ideias e propostas para começar meu governo. Sei que temos muitas diferenças, em particular com José Antonio Kast, mas saberemos construir pontes para que nossos compatriotas possam viver melhor”.

Após dois anos de convulsões, o Chile aguarda ansiosamente por essas pontes. Do contrário, o cenário poderá ser o pior possível: menos prosperidade e manutenção das desigualdades.

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