Repique da covid e do negacionismo

OMS alerta para o alto patamar da doença e a necessidade da vacina; e Bolsonaro ataca o imunizante

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2022 | 03h05

O número global de novos casos de covid-19 voltou a crescer, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS). Entre os dias 20 e 26 do mês passado, houve aumento de 18% em relação à semana anterior, com 4,1 milhões de notificações. Embora o patamar de novos casos no planeta não se compare ao pico semanal de mais de 20 milhões de infecções registradas no início do ano, foi a terceira semana seguida de alta, levando a OMS a fazer um alerta: é preciso acelerar e ampliar a cobertura vacinal. 

Ao analisar os dados, o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus, citou recente estudo publicado na prestigiada revista científica britânica The Lancet, que estima que 19,8 milhões de vidas já foram salvas pela vacinação, no período de dezembro de 2020 a dezembro de 2021. Não à toa, o diretor-geral exortou a comunidade científica a desenvolver uma nova geração de vacinas que deem conta de todas as variantes do coronavírus.

Mais de dois anos após o seu início, a pandemia de covid-19 já teve pelo menos 541 milhões de casos registrados, com 6,3 milhões de mortes, de acordo com a OMS. O Brasil responde por 32 milhões de casos e 671 mil óbitos. 

Por coincidência, o presidente Jair Bolsonaro concedeu entrevista à rede de TV norte-americana Fox News no dia em que a OMS divulgou seu balanço − 29 de junho. Como de praxe, Bolsonaro repetiu que não foi vacinado e disseminou informações falsas. Segundo ele, a vacina seria “inócua” para quem já contraiu a covid-19, o que é desmentido por especialistas.

Na mesma entrevista, o presidente marcou posição em sua campanha contra a vacina − o que é assustador, considerando que a covid-19 é uma doença que pode matar e que toda fala presidencial, por mais absurda que seja, chega aos ouvidos de muita gente. Vale reproduzir uma das declarações de Bolsonaro, tamanho o disparate: “Eu não pedi que as pessoas se vacinassem. Eu respeito a liberdade individual. Cada um é livre para se vacinar ou não”, disse.

O presidente, como se sabe, tem visão distorcida a respeito do que vem a ser a liberdade individual. No caso da covid-19, doença transmitida de uma pessoa para outra, a imunização envolve um direito coletivo, pois pandemias põem em risco o direito à sobrevivência de toda a sociedade. Não por outro motivo, a OMS insiste que a cobertura vacinal avance no mundo inteiro. Enquanto houver países com a população desprotegida, o vírus circulará, com o risco inclusive de dar origem a novas variantes. A pandemia ainda está longe de acabar, e a vacina é a solução.

A alegada liberdade individual de recusar a vacina, tão invocada por Bolsonaro e por uma parcela de seus seguidores, não resiste a um instante de reflexão. Basta pensar nas regras do Código de Trânsito Brasileiro: ao exigir que os motoristas parem no sinal vermelho ou quando os proíbe de trafegar na contramão, o código não comete um atentado à liberdade dos cidadãos. Pelo contrário, promove uma necessária e salutar regulação em benefício da segurança coletiva, para o bem de todos − algo que escapa à compreensão do presidente.

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