Reservatórios em alta, luz também

Consumidor não capta efeito da recuperação de hidrelétricas nas tarifas

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2022 | 03h00

As chuvas intensas que têm atingido boa parte do País desde outubro têm contribuído para a recuperação dos reservatórios das hidrelétricas, deprimidos após uma seca que trouxe de volta o fantasma do racionamento de energia. A previsão do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) é a de que o nível de armazenamento das usinas das Regiões Sudeste e Centro-Oeste chegue a 40% no fim de janeiro, ante 23,36% no mesmo mês de 2021. Diante da relevância desses empreendimentos para o setor elétrico, especialistas argumentam que é preciso aguardar o fim do período úmido, em abril, para avaliar o quadro de forma definitiva.

Se é verdade que o governo conseguiu evitar a incidência de apagões no ano passado, também é fato que a segurança do abastecimento foi garantida a custos muito elevados – tanto que energia foi um dos temas da carta aberta do presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, em que justifica os motivos por ter estourado a meta de inflação, de 3,75%. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerrou o ano com variação de 10,06%, enquanto as tarifas residenciais subiram 21,21%.

Nem mesmo esse aumento trará alívio na conta de luz deste ano. Depois da adoção, desde setembro, da bandeira escassez hídrica, que adiciona uma taxa de R$ 14,20 a cada 100 quilowatts-hora consumidos, o governo negocia mais um empréstimo bilionário às distribuidoras, para cobrir os gastos que foram realizados nos últimos meses. Os custos dessa operação serão pagos por meio das tarifas ao longo dos próximos anos. Segundo cálculos da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o financiamento poderá reduzir o reajuste médio projetado para 2022 de absurdos 21% para admissíveis 9,14%. “Consumimos uma energia à vista que vai ter que ser paga a prazo”, definiu o coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ, Nivalde de Castro, ao Estado.

Pode parecer incompreensível para o consumidor entender como continuará a despender tanto dinheiro com eletricidade, haja vista as tragédias que as chuvas têm causado na Bahia e em Minas Gerais. Mas a verdade é que o Ministério de Minas e Energia postergou até o limite a adoção de ações que pudessem comprometer ainda mais as chances de reeleição do presidente Jair Bolsonaro – mesmo comportamento do Banco Central ao adiar a subida da taxa básica de juros. 

Para Diogo Lisbona, pesquisador do Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura da Fundação Getulio Vargas (FGV), a resposta à escassez dos reservatórios demorou tanto que as diligências só foram adotadas quando havia risco de apagão. “Com todo receio de falta de energia, foram tomadas medidas que têm uma consequência financeira muito pesada para as tarifas”, explicou. Embora não tenha obrigado a população a poupar energia, o governo optou pelo racionamento na base de preços. O tarifaço teve o mesmo efeito recessivo que um corte compulsório de consumo teria na demanda, cuja queda foi fundamental para evitar blecautes e recuperar os reservatórios.

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