Resposta à altura

Cabe agora ao Senado dos EUA responder aos estragos provocados por Donald Trump.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2021 | 03h00

A presidência de Donald Trump representou uma ruptura política e social jamais vista nos EUA em seus 244 anos de independência. Para o bem dos cidadãos americanos, e de todos os países que têm nos EUA um modelo de liberdade e vigor democrático, igualmente inaudita foi a resposta das instituições daquele país às perigosas pretensões liberticidas do atual mandatário, exacerbadas a partir de sua derrota em uma eleição rigorosamente limpa.

Pela segunda vez em pouco mais de um ano, a Câmara dos Representantes aprovou o impeachment de Donald Trump, agora pelo fato de o presidente americano ter incitado uma turba de terroristas domésticos a tomar o Capitólio de assalto, no dia 6 passado, a fim de impedir que o Congresso certificasse a vitória do democrata Joe Biden no Colégio Eleitoral. A tentativa de golpe fracassou, mas expôs as fraturas de um país estruturalmente dividido.

A abertura do segundo processo de impeachment contra Trump foi aprovada por 232 votos a 197, 14 votos além do mínimo necessário. O placar é semelhante ao registrado em dezembro de 2019, quando os deputados aprovaram o impeachment do presidente por 230 a 197 (por abuso de poder) e 229 a 198 (por obstrução do Congresso).

Deixar um ato tresloucado como aquele sem a devida resposta institucional teria sido um gesto equivalente à rendição dos democratas aos métodos brutais de Trump. Ao autorizar uma nova abertura de processo de impeachment contra Trump, a Câmara dos Representantes não faz outra coisa senão uma vigorosa defesa do Estado Democrático de Direito, reafirmando que ninguém está acima das leis e da Constituição, nem mesmo o presidente dos EUA, considerado por muitos o homem mais poderoso do mundo.

O mais provável é que o Senado, novamente, não autorize a cassação do mandato de Trump. No entanto, a possibilidade de o presidente ter seus direitos políticos cassados é bem maior agora do que era no fim de 2019. Um Capitólio sitiado é imagem por demais chocante para que as lideranças republicanas permaneçam inertes diante do ataque perpetrado pelos apoiadores de Trump, com ardoroso estímulo do presidente. Como apurou o jornal The New York Times, o líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, mostra-se mais inclinado a votar pela cassação de Trump desta vez. Caso isto se confirme, outros senadores republicanos deverão acompanhá-lo. Para que Trump seja afastado do cargo, pelo menos 17 senadores republicanos precisarão votar contra o presidente junto com a bancada do Partido Democrata.

Além do futuro político de Donald Trump, o que estará em jogo no julgamento do impeachment no Senado é o futuro do próprio Partido Republicano. O Grand Old Party (GOP) mostra-se dividido entre republicanos escrupulosos e legalistas, como Mitt Romney e Lisa Murkowski, e incendiários inconsequentes, como Ted Cruz e Josh Hawley, que representam a ala do partido a serviço das falsidades de Trump. Como escreveu Thomas Friedman em artigo publicado pelo Estado, os republicanos terão de decidir se o partido ainda pertence ao conjunto de seus membros – e representa seus valores históricos – ou se tornou um vassalo de Trump.

Além da inédita abertura de um segundo processo de impeachment contra o presidente no curso do mesmo mandato, chamou a atenção o manifesto assinado pela cúpula das Forças Armadas dos EUA repudiando a insurreição e reassegurando a defesa da Constituição americana. Liderados pelo general Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto, os militares comprometeram-se a assegurar a posse de Joe Biden no próximo dia 20 e exortaram as tropas a “manter os olhos no horizonte”, focadas na missão de proteger o país.

Tanto a Câmara dos Representantes como as Forças Armadas mostraram firmeza ao deixar claro para Trump e seus apoiadores que há limites que simplesmente não podem ser ultrapassados sem que haja consequências. Agora cabe ao Senado dar uma resposta à altura dos estragos provocados por Trump, cassando seus direitos e dando aos extremistas norte-americanos um salutar exemplo.

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