Resta o bico, falta o dinheiro

Sem emprego, milhões tentam sobreviver com qualquer trabalho, sem carteira, sem garantias e com ganhos em baixa

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2021 | 03h00

Com 25,4 milhões de pessoas ganhando a vida sem um patrão, a categoria dos trabalhadores por conta própria chegou a um recorde no trimestre móvel encerrado em agosto. Esse contingente foi 18,1% maior que o de um ano antes, com acréscimo de 3,9 milhões de trabalhadores. Para os mais otimistas, esses dados podem sinalizar um surto de empreendedorismo. Muitos brasileiros podem ter descoberto, de fato, uma vocação empreendedora. Se essa vocação for cultivada, o País será beneficiado. Mas, para muitos outros, possivelmente para a maioria, esse tipo de ocupação pode ter sido simplesmente um remédio improvisado, e muito inseguro, contra o desemprego devastador, como indica um estudo feito pela consultoria Idados. Estiveram desempregados nesses três meses 13,7 milhões de pessoas, 13,2% da população economicamente ativa.

Para conhecer detalhes sobre esse trabalhador, a consultoria comparou informações do segundo trimestre de 2019, anterior à pandemia, e do segundo deste ano. O trabalho por conta própria, geralmente informal e com baixa remuneração, foi aquele com expansão mais sensível nesse intervalo de dois anos.

Esse grupo, correspondente a 28,2% da população ocupada no trimestre de abril a junho de 2021, é formado principalmente por trabalhadores pouco qualificados, mas inclui pessoas com formação superior. Também essas foram atingidas economicamente pela onda de covid-19, agravada pelo desgoverno do presidente Jair Bolsonaro. O estudo foi baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE.

Além de abalar o mercado de trabalho, a pandemia piorou a condição de quem vive por conta própria, isto é, de quem depende de um bico. No intervalo escolhido como referência para o estudo, 2 milhões se juntaram ao contingente com ganho mensal de até 1 salário mínimo. Além disso, parte dos trabalhadores já ocupados dessa forma perdeu rendimento. Houve precarização maior de um tipo de trabalho já mais precário do que aquele com carteira assinada, segundo Ana Tereza Pires, pesquisadora da Idados, citada no Estado.

O estudo permite uma visão mais clara, e mais dramática, dos estragos ocorridos no mercado nacional de trabalho nos últimos dois anos. Mostra mais nitidamente a importância do bico, isto é, da solução precária, e com frequência improvisada, encontrada por milhões de pessoas diante da impossibilidade de um emprego em condições decentes. Muitos nem esse bico encontraram.

Milhões, com ou sem bico, foram incapazes, desde o fim de 2020, de garantir a comida e outros itens necessários às famílias. Dependentes de ajuda, muitas dessas famílias continuam inseguras quanto às suas condições de sobrevivência em 2022. Já prejudicados pelas condições de trabalho, esses brasileiros têm sido pressionados por uma inflação acelerada, com taxa acumulada de 10,25% nos 12 meses até setembro. As perspectivas de evolução dos preços no próximo ano têm piorado, em grande parte pelo comportamento do presidente da República, empenhado em atender às demandas de seus aliados no Parlamento.

Assim como o desemprego, a inflação brasileira supera com muita folga os padrões da maioria dos países desenvolvidos e emergentes. Nos 38 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a desocupação média em agosto ficou em 6%. Nos 12 meses até setembro a inflação média atingiu 4,6%. No período terminado em agosto a taxa havia sido de 4,3%. A onda inflacionária é global, mas os números brasileiros são bem piores, em grande parte por causa das instabilidades geradas no Palácio do Planalto.

Com o baixo crescimento econômico previsto para os próximos anos – 1% em 2022 e cerca de 2% nos dois seguintes –, o desemprego deverá cair devagar e dificilmente estará abaixo de 11% em 2026, segundo estimativa recente de técnicos da Fundação Getúlio Vargas (FGV). As perspectivas poderão melhorar, é fácil concluir, com mudança na Presidência da República. Mas o sucessor, em 2023, terá de administrar um péssimo legado.

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