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Retomada em marcha lenta

Além dos dados fracos, especialistas indicam possível necessidade de revisão para baixo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2021 | 03h00

A recuperação da economia, proclamada pelo governo e celebrada no mercado financeiro, continua precária, com duas quedas mensais consecutivas, de 1,5% em março e 0,7% em abril, segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV). O quadro parece muito mais promissor quando a comparação é feita com as piores fases do ano passado. O confronto com abril de 2020, momento de maior impacto da pandemia, mostra um ganho, espetacular à primeira vista, de 12,3%. Mas a ilusão some quando se faz um balanço mais amplo. O resultado acumulado em 12 meses ainda foi 1,8% menor que o do período anterior, mostrando uma retomada ainda incompleta. Os números são do Monitor do PIB-FGV, a mais detalhada prévia mensal do Produto Interno Bruto (PIB), divulgado a cada três meses pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os percalços da recuperação, reflexos da ação errática do governo, também aparecem, claramente, nos dados trimestrais, com a perda de impulso dos negócios. No trimestre móvel encerrado em outubro de 2020 o PIB foi 6,2% maior que no período de maio a julho. O avanço caiu para 1,8% nos três meses terminados em janeiro e para 0,3% no período fevereiro-abril. A redução do auxílio emergencial a partir de setembro, sua suspensão entre janeiro e março e a interrupção das políticas anticrise até abril são nitidamente assinaladas por esses números.

Mas os fatos podem ser mais feios que o retrato desenhado por essas estatísticas, adverte o pessoal da FGV. Além de matar milhares de pessoas, lotar os hospitais e devastar os negócios, a pandemia pode ter desarrumado amplamente os fatores sazonais. Os economistas costumam, ao ordenar a série dos números, descontar o efeito dos fatores típicos de cada fase do ano. Isso é necessário para tornar os dados comparáveis. No Brasil e no exterior especialistas vêm examinando os impactos da pandemia naqueles fatores.

Esses efeitos – esta é a suspeita – podem ter prejudicado a construção das séries desde o ano passado. Por isso, cálculos alternativos têm sido elaborados, com base nos padrões sazonais levados em conta entre 2000 e 2019. Esses cálculos indicam, para abril, uma queda de 1,5%, mais que o dobro do recuo de 0,7% registrado no Monitor do PIB. É preciso, portanto, considerar com cautela os números com ajustes sazonais até agora divulgados, advertem os técnicos da FGV. Essa advertência vale, naturalmente, para os dados de todas as fontes produtoras de estatísticas.

Mesmo sem essa ressalva, o desempenho apontado pelo Monitor justifica muita cautela diante das avaliações da economia e das projeções. “As previsões de crescimento do PIB neste ano, fortemente influenciadas pelo resultado do primeiro trimestre, podem estar muito sobrestimadas”, alertam os pesquisadores Claudio Considera, Juliana Trece e Roberto Olinto, em texto recente sobre os efeitos da pandemia nos fatores sazonais. Considera coordena a elaboração do Monitor do PIB. Segundo esse artigo, o crescimento econômico no primeiro trimestre pode ter sido de apenas 0,4%, se for levada em conta, na construção da série, a sazonalidade considerada até 2019. O IBGE mostrou expansão de 1,2%.

Sem correção, porém, do possível problema da sazonalidade, os números do Monitor já tornam aconselhável um pouco mais de prudência na avaliação das condições e das perspectivas econômicas. O avanço de apenas 0,3% no trimestre móvel encerrado em abril indica uma considerável perda de ritmo desde o fim do ano passado. A queda de 1,8% da produção geral da indústria – e de 2,8% no caso da indústria de transformação – é mais uma confirmação do baixo dinamismo do setor. Na sequência dos trimestres, encerrados em outubro, janeiro e abril, a expansão do consumo passou de 5,4% para 1,7% e 0,3%. Esses dados provavelmente refletem as mudanças no auxílio emergencial e a piora das condições de emprego. Dão mais clareza, portanto, à diferença, já amplamente reconhecida, entre a recuperação econômica celebrada no mercado financeiro e as condições da maior parte dos brasileiros.

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