Retomada segue sem plano

Se o governo tem plano para sustentar a recuperação econômica sem o auxílio emergencial, deve estar empenhado em mantê-lo em segredo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2020 | 03h00

Se o governo tem um plano para sustentar a recuperação sem o auxílio emergencial, deve estar empenhado em mantê-lo em segredo.

A mera redução do auxílio de R$ 600 para R$ 300, a partir de setembro, já provoca insegurança entre economistas. A reação econômica iniciada em maio, depois do tombo em março e abril, tem sido puxada principalmente pelo consumo. Até julho, a retomada na indústria havia sido insuficiente para levar a produção de volta ao nível de fevereiro, já muito baixo. Sem auxílio especial e com o desemprego alto, e de fato ainda em alta, é difícil dizer como será alimentado o motor da reativação. As condições da economia em 2021 permanecem obscuras, mas previsões são difíceis até para os meses finais de 2020, como ontem indicou reportagem do Estado

O cenário de alta incerteza se mantém, com o patamar de atividade muito baixo e a recuperação muito lenta, disse o economista Claudio Considera, coordenador do Monitor do PIB-FGV, ao apresentar o quadro geral de julho. Nesse mês o Produto Interno Bruto (PIB) foi 2,4% maior que em junho e 6,1% menor que um ano antes, segundo as últimas estimativas. O consumo foi o principal motor, embora tenha havido alguma reação no investimento produtivo, isto é, no valor das aplicações em máquinas, equipamentos, obras e outros bens de produção.

Mas é muito difícil, por mais de uma razão, indicar o investimento como importante motor da atividade, se o consumo perder vigor. Tem aumentado o uso da capacidade na indústria, mas a ociosidade continua ampla. Em julho, segundo o Monitor da FGV, o investimento aumentou e correspondeu a 17,1% do PIB, mas continuou abaixo da média mensal a partir de 2000 (18%). Além disso, o valor foi 7,8% menor que o de um ano antes, descontada a inflação

Em tempos de crise, o setor público pode estimular a atividade investindo em obras, mas isso parece muito improvável, no Brasil, por causa das condições muito precárias das finanças oficiais. O déficit primário do governo deve aproximar-se de 12% do PIB, neste ano, e será preciso reduzi-lo a 3% em 2021, de acordo com o projeto de Orçamento federal em exame no Congresso. Os Estados também terão muita dificuldade para aplicar dinheiro em obras.

Algum investimento em infraestrutura poderá surgir, em 2021, se o governo avançar nas privatizações e na atração de recursos privados para construções. Mas a administração federal teve pouco sucesso, desde o ano passado, em qualquer dessas tarefas. Falta consenso, mesmo no Executivo, para um programa de privatizações. Quanto a obras, só têm entrado na agenda presidencial quando envolvem a possibilidade de alguma inauguração – ou, talvez, até de mero lançamento diante de um público de apoiadores.

Capital externo poderia reforçar investimentos públicos e privados, mas falta um cenário mais claro e mais seguro para as decisões. No Executivo há um conflito entre a equipe econômica, ainda empenhada na defesa do ajuste, e ministros favoráveis a maiores despesas. Esses ministros nem sequer apresentam algo parecido com um plano. Tampouco dizem de onde sairá o dinheiro.

O presidente oscila, em suas manifestações, entre os dois grupos, mas sempre exibindo, mesmo involuntariamente, a prioridade atribuída à reeleição. Diante da insegurança até em relação à política fiscal, estrangeiros tiram recursos ou deixam de aplicar no País. Desde 2015 a participação estrangeira em títulos da dívida pública diminuiu de 20,8% para 9%. A fuga do Brasil intensificou-se neste ano e a saída de capitais é claramente refletida na instabilidade cambial.

Ninguém pode dizer com segurança, agora, como o governo cuidará de suas finanças em 2021 e como evoluirá a dívida pública. Incapaz de fixar um roteiro até para a gestão das contas federais, a equipe econômica deve ainda – e nada sugere alteração desse quadro – um plano de sustentação da retomada econômica e de consolidação do crescimento nos próximos anos. Mesmo assim, empresários mostram alguma confiança. Ainda bem. Pessimismo seria pior.

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