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Retrato da juventude brasileira

Satisfação dos jovens, que já vinha piorando desde a recessão, agravou-se na pandemia

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2021 | 23h50

A juventude brasileira se encontra num ponto de inflexão. A população jovem nunca foi e nunca será tão grande quanto hoje. São 50 milhões na faixa entre 15 e 29 anos (26% da população), mas nas próximas décadas a tendência, como no resto do mundo, é de redução. No caso do Brasil, há um complicador: a satisfação dos jovens, que já vinha piorando desde a recessão, se agravou com a pandemia. É o que constata o levantamento da FGV Social Jovens: Projeções Populacionais, Percepções e Políticas Públicas.

“Não há melhor preditor do futuro do País que o universo dos jovens de hoje”, lembram os pesquisadores. A ser assim, as perspectivas são nebulosas. Em 2013-14, a autoavaliação dos jovens sobre a satisfação com a vida presente era de 7,2 numa escala de 1 a 10. Esse índice caiu para 6,7 em 2017-19 e na pandemia atingiu 6,4.

Se em 2011-14, 16,8% dos jovens declararam que nos 12 meses anteriores faltou dinheiro para comprar comida, em 2015-18 esse índice subiu para 25,6% e em 2020 chegou a 28%. A satisfação com o sistema educacional, que aumentara de 47% em 2013-14 para 56% em 2017-19, sofreu uma queda espetacular na pandemia, chegando a 41%.

Os brasileiros não estão sozinhos. De acordo com o Relatório Mundial da Felicidade, da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da ONU, na pandemia os idosos ficaram um pouco mais felizes e os jovens menos. Mas no Brasil a angústia juvenil foi desproporcional. A queda de 0,8 ponto no índice de satisfação entre 2013 e 2020 foi a 3.ª mais alta em 132 países. Em 2015-18, os jovens brasileiros preocupados chegaram a 44%, ante 35,5% no mundo. Mesmo antes da pandemia, o índice subiu para 50% e em 2020 atingiu o recorde de 59%.

O levantamento mostra que o jovem brasileiro confia menos nas instituições do que a média mundial. A diferença é mais marcante na questão ambiental. Globalmente, a satisfação dos jovens com os esforços ambientais de seus países tornou-se majoritária (56%) em 2015-18. No mesmo período, a dos jovens brasileiros foi de 33%. Em 2019, caiu para 27% e em 2020, para 19%.

Concomitantemente à deterioração das percepções em relação ao presente, há o declínio objetivo da força jovem. Até o fim deste ano a população jovem deverá ficar abaixo dos 50 milhões pela primeira vez desde 2002. A partir da próxima década, o contingente deve cair mais rapidamente, e até o fim do século deve ser reduzido à metade.

O fenômeno é global. Até 2060, o porcentual de jovens deve diminuir 95% no mundo. Isso significa menos força de trabalho e mais gastos com saúde e previdência. O Brasil precisa pensar agora em políticas para lidar com essa transição. Os gastos com educação devem diminuir, mas o sistema previdenciário precisará de reformas periódicas.

Um setor que exige especial atenção são as políticas de imigração legal. Pelas projeções da ONU, a população brasileira, após atingir 229 milhões em meados do século, deve encolher para 181 milhões no final. Já a dos EUA, hoje de 328 milhões, deve aumentar para 434 milhões. Os índices de natalidade são similares. A diferença está na imigração. Apesar das mazelas relativas à discriminação racial no Brasil, o País é uma democracia multiétnica singular. São Paulo, o Estado mais rico e populoso do País, é uma prova viva da vocação nacional para receber imigrantes.

No momento, os 50 milhões de jovens brasileiros fazem com que o País ainda seja relativamente jovem, com média de 33 anos. “O Brasil precisa aproveitar ao máximo esta onda jovem para impulsionar suas transformações sociais e econômicas”, apontam os pesquisadores da FGV.

Nesse sentido, o País ainda tem um recurso singular: o otimismo. Os indicadores mostram que, apesar das agruras do presente, os brasileiros, em especial os jovens, têm expectativas elevadas em relação à sua satisfação daqui a cinco anos. Se isso aumenta o risco de frustração, é também uma fonte de energia para a transformação. Alavancá-la dependerá de uma mobilização nacional pela melhoria da educação e da atração dos jovens para a vida pública.

 

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