Reviravolta nos juros

Com os preços disparados e muita incerteza sobre o futuro das contas públicas, analistas davam como inevitável uma alta da Selic, a taxa básica

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2021 | 03h00

Incapaz de conter o presidente Jair Bolsonaro, o Banco Central (BC) limitou-se a uma decisão mais convencional, porém mais custosa. Apertou a política de juros, tentando mexer nas expectativas, tornar o dólar menos instável e encaixar a inflação, de novo, nos objetivos oficiais. Com os preços disparados e muita incerteza sobre o futuro das contas públicas, analistas davam como inevitável uma alta da Selic, a taxa básica. Vários especialistas, no entanto, qualificaram como surpreendente a elevação de 2% para 2,75%, anunciada no começo da noite de quarta-feira, depois da reunião periódica do Copom, o Comitê de Política Monetária do BC. Poucos haviam apostado num aumento superior a 0,50 ponto porcentual.

A decisão foi um recado forte. Além da alta de 0,75 ponto, o comitê, formado por diretores do banco, anunciou como quase certo um ajuste igual em sua próxima reunião, em 4 e 5 de maio. Mas já se especula sobre um ajuste mais amplo. Até o fim do ano, segundo se estima no mercado, a taxa deverá chegar a 4,50%, encarecendo a dívida pública e atrapalhando, talvez, o crescimento.

O recado poderá afetar, no curto prazo, as expectativas de inflação e, talvez, a evolução do câmbio. De certa forma, a decisão do Copom é uma resposta a cobranças de investidores e de economistas. Mas o alcance efetivo da nova política é obscuro.

Não se pode falar seriamente de inflação de demanda, quando dezenas de milhões de pessoas dependem da volta do auxílio emergencial para sobreviver. Não se trata de cuidar de um mercado superaquecido. Juros mais altos serão inócuos contra um problema inexistente. Mas poderão funcionar, de outra forma, contra ameaças de outro tipo.

O aumento de preços internacionais das commodities, com reflexos no mercado brasileiro, aparece no comunicado emitido pelo Copom logo depois da reunião. Alimentos e matérias-primas de origem agropecuária têm ficado mais caros. Economistas discutem se ocorre um novo superciclo das commodities. Enquanto o debate prossegue, os consumidores pagam mais pela comida. As cotações internacionais do petróleo, assim como o câmbio, também afetam direta e indiretamente o conjunto dos preços internos.

Enquanto sobe o custo do sustento familiar, pioram as projeções de inflação e números acima da meta – 3,75% em 2021 – já são correntes. Mas o Copom mantém o diagnóstico de choques temporários. Nesta altura, essa é uma insistência um tanto estranha.

Mas há, no comunicado, outras passagens curiosas. Exemplo: “... o agravamento da pandemia pode atrasar o processo de recuperação econômica, produzindo trajetória de inflação abaixo do esperado”. Isso faria sentido se a alta de preços, no Brasil, dependesse apenas, ou principalmente, da demanda final. Mas o caso brasileiro é diferente.

Como o agravamento da pandemia, no País, é associado ao negacionismo e a outros erros do governo, a ampliação do desastre sanitário realimenta as incertezas, pressiona o câmbio e se reflete na inflação. Há um evidente parentesco, certamente percebido no mercado, entre a má condução da política de saúde, inegável até agora, e as decisões inseguras e erráticas sobre a política econômica e, de modo especial, sobre as contas oficiais e a dívida pública.

Resumindo: o risco fiscal mencionado no informe do Copom é indistinguível do aumento de contágios e de mortes na pandemia. Os dois conjuntos de fatos têm uma origem comum – a cabeça de um presidente obcecado por interesses eleitorais e familiares. A intervenção do presidente na política de preços de combustíveis e na gestão do Banco do Brasil é irmã gêmea de sua atuação catastrófica nas questões ligadas à pandemia.

Impossível evitar estranheza, também, diante do aparente otimismo em relação ao andamento da economia. “O cenário atual”, segundo o comunicado, “já não prescreve um grau de estímulo extraordinário.” Mesmo com a piora, a cada semana, das projeções de crescimento? Mais detalhada, a ata da reunião deve sair na próxima terça-feira. Talvez seja mais esclarecedora e menos estranha.

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