Risco de fogo nas contas externas

Fogueiras na Amazônia devem ser consideradas na avaliação das contas externas do País

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2019 | 03h00

Fogueiras na Amazônia e sua repercussão mundial são um complemento necessário a qualquer avaliação realista das contas externas do Brasil, já em deterioração. Analistas de mercado – e gente do governo, em primeiro lugar – deveriam dar mais atenção a esse detalhe, mas o fogo e a fumaça parecem continuar despercebidos. Não há ainda um sinal vermelho, disse um economista ao comentar o aumento do buraco em transações correntes. O déficit chegou a US$ 4,27 bilhões em agosto, contra US$ 1,77 bilhão um ano antes, e atingiu US$ 30,28 bilhões em 12 meses. A falha continua coberta com muita folga pelo investimento direto e assim deve continuar, dizem analistas. Não há motivo para preocupação, garantiu outro técnico, embora o déficit, segundo admitiu, tenha passado de pequeno a “moderado”. Mas seria bom levar em conta as novas preocupações de investidores e importadores. 

Não só pelas queimadas, mas também pela retórica do presidente Jair Bolsonaro e dos ministros do Meio Ambiente e de Relações Exteriores, a imagem do Brasil como produtor e exportador agropecuário anda um tanto chamuscada. Na semana passada, 230 fundos de investimento, administradores de US$ 16 trilhões, publicaram um manifesto em defesa da Amazônia e cobraram medidas do governo brasileiro e de empresas com interesses no agronegócio – compradoras de produtos agropecuários ou acionistas de companhias do setor.

Uma das cobranças já havia sido feita em outras ocasiões, por outras entidades: é preciso controlar com atenção a origem dos produtos comercializados. Mas há uma novidade especialmente perigosa: o risco de perder o capital dos investidores. Ameaças nunca haviam sido feitas por entidades com tal poder econômico. 

Pressões mais concretas já começaram. Segundo o jornal Financial Times, a ONG Global Witness criticou duas grandes gestoras de ativos, a Capital Group e a Black Rock, por serem acionistas da JBS, exportadora de carne acusada de envolvimento na destruição da floresta. A JBS repeliu a acusação e apresentou-se como defensora da Amazônia. As duas grandes investidoras também se defenderam, mas o caso ilustra bem como o escândalo dos incêndios no Brasil pode afetar a vida no mercado financeiro e no comércio internacional. 

Ainda na semana passada, o Parlamento da Áustria aprovou uma moção contra o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul. A insegurança quanto ao cumprimento dos compromissos ambientais foi o argumento usado para justificar a decisão. Se um governo do bloco europeu rejeitar o acordo, mais de duas décadas de negociação poderão ir pelo ralo. 

A discussão internacional sobre a Amazônia está certamente contaminada por exageros e por manobras comerciais, especialmente protecionistas, mas o risco para os interesses brasileiros é real e ninguém deve ignorá-lo (leia também o editorial O clima como questão política). Além disso, o escândalo tem origem no Brasil, nas ações e declarações irresponsáveis e desastrosas do presidente Jair Bolsonaro e de membros de seu governo. 

Dificilmente se encontrará um agronegócio capaz de reunir eficiência e preservação na escala observada no Brasil. Mas o esforço acumulado em décadas pode ser perdido, se o governo for incapaz de reconhecer e de reparar seus erros. 

Sem o superávit garantido pelo agronegócio, sumirá ou encolherá o saldo comercial necessário para conter o déficit na conta corrente do balanço de pagamentos. Nos 12 meses terminados em agosto, esse déficit chegou a 1,84% do Produto Interno Bruto (PIB), a maior proporção desde março de 2016, quando bateu em 2,11%.

Segurança nas contas externas, dramaticamente importante num país forçado a duros ajustes internos, depende do saldo comercial, do investimento estrangeiro e de reservas cambiais volumosas. Exportações agropecuárias e atração de investimentos dependem da economia global, já em deterioração, e da imagem do país. O governo nada pode fazer para arrumar a economia mundial. Mas pode parar de prejudicar a imagem do Brasil. 

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