Risco de fratura na economia global

Com a invasão da Ucrânia, uma crise sobre crise, ficou mais grave o perigo de fragmentação geoeonômica,adverte o FMI

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2022 | 03h00

Puxada pela comida e pela energia, a inflação pressiona famílias em todo o mundo – e o quadro pode piorar, adverte o Fundo Monetário Internacional (FMI), se continuar o desmonte da ordem econômica. Somada à pandemia de covid-19, a invasão da Ucrânia pela Rússia gerou crise sobre crise, “devastando vidas, derrubando o crescimento, elevando a inflação” e agravando o risco de uma fragmentação geoeconômica, segundo análise divulgada na véspera da abertura, em Davos, da reunião do Fórum Econômico Mundial. Somente a cooperação internacional, ressalta a mensagem, poderá dar conta de problemas urgentes como a escassez de alimentos e de outros produtos, “eliminando barreiras ao crescimento e salvando o clima”.

Forças de integração triplicaram o tamanho da economia global, nas últimas três décadas, e tiraram 1,3 bilhão de pessoas da pobreza. Nesse período, assinala o documento, fluxos de capital, bens, serviços e pessoas transformaram o mundo, auxiliadas pela difusão de tecnologias e de ideias, elevando a produtividade e os padrões de vida. Destacadas no texto, as palavras “forças de integração” sintetizam esse conjunto de fatores.

Nem tudo é positivo nesse balanço. Trabalhadores foram deixados para trás, na mudança tecnológica, persistiram desigualdades entre pessoas e entre nações e a confiança na globalização nunca foi geral e irrestrita. Com a incerteza em relação às políticas comerciais, o produto mundial, em 2019, foi cerca de 1% inferior ao que poderia ter sido. A insegurança tem crescido. Desde o começo da guerra na Ucrânia, cerca de 30 países, segundo o FMI, limitaram o comércio de alimentos, de energia e de outros importantes produtos básicos.

Pessoas de todos os níveis profissionais e econômicos serão atingidas, se a desintegração do sistema global prosseguir, estimam economistas do FMI. Obstáculos têm sido criados por vários fatores, incluindo o aperto financeiro. Tudo ficará mais complicado se houver reconfiguração das cadeias de suprimento e barreiras maiores à aplicação de capitais e à transferência de tecnologias. A produtividade será afetada, a inflação subirá, a inovação será freada e haverá severos prejuízos à expansão do Produto Interno Bruto (PIB).

Para elevar a confiança no sistema global, o FMI aponta quatro prioridades: fortalecer o comércio, apoiar os países mais endividados, modernizar os pagamentos internacionais e combater a mudança climática. A questão dos pagamentos é especialmente importante por causa do enorme volume de remessas familiares. Atualmente, cerca de US$ 45 bilhões ficam nas mãos de intermediários, a cada ano, com graves perdas para milhões de famílias de baixa renda.

A cooperação no comércio envolve medidas a favor tanto de exportações quanto de importações, essenciais para aliviar ou evitar desarranjos no sistema de preços. Também os exportadores de matérias-primas agora mais caras, como alimentos e combustíveis, devem pensar nos efeitos mais amplos de suas políticas e olhar para além do curto prazo. Isso inclui, obviamente, países como Brasil, Indonésia e Argentina, além, é claro, da Rússia, embora nenhum país seja citado.

A mudança climática é descrita como um “desafio existencial” particularmente importante. É preciso urgentemente fechar a distância entre a ambição e as políticas, combinando a precificação do carbono, o investimento em fontes de energia renováveis e a compensação para quem for adversamente afetado pelas mudanças, propõe o documento.

Os desafios apontados pelo FMI já são claros e sensíveis. A inflação assola emergentes e países em desenvolvimento e atinge, no mundo rico, os níveis mais altos em quatro décadas. A produção também perde impulso. Em 38 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a atividade no primeiro trimestre foi 0,1% maior que nos três meses anteriores. No trimestre final de 2021 o crescimento havia sido de 1,2%. No Brasil, onde as perspectivas já eram ruins, notícias como essa deveriam impor maiores cuidados ao governo. 

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