Risco de tempestade global

Guerra no comércio, desaceleração e riscos financeiros dão forma ao cenário de desastre

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2019 | 03h00

Uma tempestade perfeita está em formação na economia mundial. Pode-se evitá-la, mas para isso os governos precisam agir com rapidez e de forma coordenada. Isso resume a principal mensagem transmitida por dirigentes e economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) na assembleia anual realizada em Washington. Há dez anos o mundo começava a sair da mais funda recessão vivida em oito décadas. Neste momento, guerra no comércio, desaceleração global e riscos financeiros crescentes dão forma ao cenário de um novo desastre.

O alerta foi transmitido em três mensagens principais. A primeira chamou a atenção para uma desaceleração sincronizada. A segunda apontou o perigo de um novo estouro financeiro, subproduto de políticas monetárias muito frouxas mantidas por muito tempo e resultantes, hoje, até em juros negativos no mundo rico. O terceiro recado enfatizou o esgotamento dessas políticas e a urgência de medidas fiscais – onde haja espaço nas conta públicas – para reanimar a produção e o investimento produtivo.

Qualquer dessas mensagens bastaria, isoladamente, para justificar maior atenção dos governos aos pontos fracos do sistema econômico. Mas vieram em rápida sucessão, desta vez, e o risco de convergência dos problemas foi ressaltado na apresentação de cada estudo pelos chefes e técnicos das áreas especializadas.

Não se trata, no entanto, apenas de um risco de convergência. Em conjunto, esses problemas tenderão a reforçar-se uns aos outros e a ampliar seus piores efeitos. Um eventual agravamento da guerra de tarifas poderá subtrair 0,8% do produto mundial no próximo ano. A economia poderá crescer, mas com vigor bem menor, e isso prejudicará fortemente, para citar só dois exemplos, a criação de empregos e a diminuição da pobreza. Num cenário adverso, os débitos em risco das companhias não financeiras poderão chegar a US$ 19 trilhões, cerca de 40% das dívidas empresariais nas principais economias. 

Os três alertas principais foram acompanhados, sempre, de apelos à ação coordenada. A coordenação internacional ocorreu e produziu resultados apreciáveis, a partir de 2009, nas primeiras ações contra a última grande crise. Não se trata, portanto, de mera retórica sem significado prático. Há sólidas e excelentes experiências de articulação internacional em tempos de crise. Mas a articulação pode ser hoje bem mais complicada, por causa da multiplicação de governos comprometidos com a mistura de populismo e nacionalismo estreito.

A palavra multilateralismo foi usada várias vezes, na apresentação de relatórios do FMI. Essa noção permanecerá, explícita ou implicitamente, qualificando as principais mensagens do Fundo e de outras instituições multilaterais, enquanto o cenário permanecer ameaçador. Dessa ideia, essencial para o bom funcionamento das trocas internacionais, depende a consolidação, por exemplo, de uma nova etapa na experiência da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Torpedeada pelo governo do presidente Donald Trump, a OMC tem resistido com dificuldade à tentativa de imposição irrestrita da lei do mais forte na economia global. A guerra comercial entre Estados Unidos e China, uma das principais ameaças à estabilidade mundial, é parte dessa história.

Outro importante risco apontado pelos analistas – um Brexit sem acordo – também reflete a inclinação de recusa das formas de articulação internacional. Mesmo com acordo, o próprio Brexit, o divórcio entre o Reino Unido e a União Europeia, será um passo atrás, depois de várias décadas de crescimento internacional apoiado em formas de integração econômica e até política. Essas formas envolvem união aduaneira, compromissos comuns com parceiros externos, instituições de regulação regional e construção progressiva e gradual de condições de cidadania multinacional. Multilateralismo e formas amplas de coordenação seriam altamente improváveis, se dependessem do presidente Donald Trump, dos novos governantes europeus de extrema direita e de um grande admirador desse grupo, o presidente Jair Bolsonaro. 

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